Exaltação da Santa Cruz

Da Cruz, Nosso Pai Santo Agostinho nos disse: “Na largura vejo as boas obras de caridade; no comprimento, a perseverança até o fim; na altura, a esperança dos prêmios celestiais; na profundidade, os profundos juízos de Deus, donde que esta graça vêm aos homens. Acostumo aplicar este sentido ao Sacramento da Cruz” (Carta 151,2)… Deixemos que o Mistério da Cruz abarque toda a nossa vida, para que o Mistério da Ressurreição coroe também nossa existência!

O dia 14 de setembro, os cristãos do Ocidente e do Oriente se encontram para juntos exaltar a santa Cruz, uma festa que deve ligar-se à dedicação da basílica da Ressurreição, erguida sobre o sepulcro de Cristo em Jerusalém († 335), mas que, mais tarde, entre os fiéis de tradição constantinopolitana, teve como objeto a invenção da santa Cruz e a sua primeira apresentação ao povo pela imperatriz Helena, mãe de Constantino, e do bispo local São Macário.

Também o ícone da festa evoca tal acontecimento: no meio está a Cruz sustentada pelo bispo de Jerusalém, à esquerda (de quem olha) estão duas figuras coroadas, protagonistas da busca e do achado da preciosa relíquia, à direita aparece a figura do miraculado e do povo. A tradição, com efeito, narra que quando foram descobertas nas escavações três cruzes, para distinguir a de Jesus Cristo das dos ladrões, foi colocado o cadáver de um homem e, ao simples contato com o madeiro que sustentou o Salvador do mundo, ele foi milagrosamente ressuscitado.

Nenhum dos ritos conhecidos pode disputar ao rito bizantino o lugar especialíssimo que ele reserva à Cruz, seja no calendário litúrgico, seja na literatura eclesiástica e pelos Hinógrafos sacros, através dos séculos, para cantar e louvar as virtudes, as glórias e o inefável papel da cruz redentora.

Todas as quartas e sextas-feiras do ano são dedicadas à santa Cruz. Cantam-se, então, os seguintes tropário e kondakion:

Salva, Senhor, teu povo e abençoa a tua herança;

concede às tuas Igrejas vitória sobre os inimigos

e protege, pela tua Cruz, este povo que é teu.

 

Tropário (1° tom)

Cristo Deus, que voluntariamente foste levantado na Cruz,

tem compaixão do teu povo que traz o teu nome.

Alegra, pelo teu poder, os nossos fiéis governantes,

dando-lhes a vitória sobre os inimigos:

encontrem na tua aliança

uma arma de paz, um troféu invencível.”

 

Kondakion (4º tom)

Essas duas orações são as mais importantes também na celebração do 14 de setembro. No meio da Quaresma temos outra festa dedicada à Cruz . Outras duas comemorações se fazem no dia 12 de agosto e em 7 de maio, porém a festa máxima permanece mesmo a de 14 de setembro, cuja importância é evidenciada pela sua mesma denominação: festa da Universal Exaltação da venerável e vivificante Cruz. Ela é precedida por um dia de vigília e se conclui em 21 de setembro. O próprio das Vésperas começa com estes hinos:

 

A Cruz exaltada convida toda a criação

a cantar hinos à paixão imaculada

daquele que sobre ela foi erguido:

sobre a Cruz ele levou à morte

quem nos tinha dado a morte,

ressuscitou os mortos

e, tendo-os purificado,

em sua compaixão e infinita bondade

os fez dignos de viver nos céus;

alegremo-nos, pois, exaltemos seu nome

e magnifiquemos a sua extrema condescendência.

Erguendo os braços para o alto

e pondo em fuga o tirano Amalek,

Moisés te prefigurou, ó Cruz veneranda,

glória dos fiéis, sustentáculo dos mártires,

ornamento dos apóstolos, defesa dos justos,

salvação de todos os santos.

Por isso à vista da tua exaltação,

a criação se alegra e exulta glorificando a Cristo,

cuja extrema bondade reuniu, por teu meio,

o que estava disperso.

Em muitos outros hinos da festa encontramos profundidade teológica, exultação de louvores, riqueza de referências bíblicas. No final, enquanto os fiéis vão beijar a Cruz, bem ornamentada, exposta sobre o proskinetáríon no meio da igreja, canta-se o hino que segue, indicado nos livros litúrgicos como obra do “imperador Leão” († 912):

Vinde, fiéis, adoremos o madeiro vivificante:

sobre ele Cristo, Rei da glória, estendeu os braços

e nos reergueu para a primitiva bem-aventurança,

da qual o inimigo, aliciando-nos, nos havia despojado,

afastando-nos da presença de Deus.

Vinde, fiéis, adoremos o madeiro

graças ao qual somos julgados dignos

de esmagar as cabeças dos inimigos invisíveis.

Vinde, famílias de todos os povos,

veneremos com nossos cânticos a Cruz do Senhor.

Salve, ó Cruz, perfeita libertação do Adão decaído;

em ti se glorificam os nossos piíssimos reis,

pois é pelo teu poder que submetem à força

o povo de Israel.

Beijando-te agora com reverência,

nós, cristãos, glorificamos ao Deus

que sobre ti foi pregado,

clamando: Senhor, que foste crucificado sobre ela,

tem piedade de nós, tu o Bom e Amigo dos homens.”

Segue-se o rito, simples, mas com um significado cósmico evidente’ no qual o sacerdote faz a “exaltação” da Cruz: eleva-a ao máximo que puder acima de sua cabeça e depois a abaixa até tocar o chão, em direção dos quatro pontos cardeais, pronunciando intenções de preces as quais o povo responde com insistência: Kyrie, eleison, ou Góspodi, pomilui (Senhor, piedade).

Conforme prescrevem os livros litúrgicos, essa invocação repete-se 100 vezes para cada uma das 4 direções.

Mesmo sendo uma festa do Senhor, é praxe, nas orações bizantinas, lembrar vivamente a Mãe de Deus; eis um breve hino da Ode Nona do Cânon:

Tu és, ó Mãe de Deus, o místico jardim

que sem ter sido cultivado germinou o Cristo,

para o qual foi plantada a árvore vivificante da Cruz.

Por isso hoje, ao exaltá-la,

adoramos a ele e a ti glorificamos.

Ode Nona do Cânon

O dia 14 de setembro, mesmo quando cai num domingo, é celebrado pelo Oriente bizantino com jejum e abstinência por causa da alusão direta à paixão do Salvador. No entanto a hinografia se caracteriza pelo tom de triunfo ao apresentar a Cruz como instrumento de salvação e de vitória sobre os inimigos da Igreja e dos cristãos. Alguns elementos textuais talvez firam a nossa sensibilidade moderna, como também a referência a alguma tradição lendária, mas é preciso imergir na realidade cultural dos fiéis e observar a participação numerosa e atenta às celebrações dessa festa para entender seu valor educativo. A salvação vem da Cruz de Cristo; por isso a Igreja quer que ela seja admirada pelo olhar dos fiéis e meditada no íntimo dos que repetidamente aclamam:

Adoramos a tua Cruz, Senhor,

e glorificamos a tua santa ressurreição!

 

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