Oficina de Oração – Outubro 2018

Durante a última ceia, antes de anunciar que um de seus discípulos o iria trair, Jesus se “perturbou”. A perturbação do corpo de Jesus é interpretada por Agostinho como a perturbação da Igreja, que é o Corpo de Cristo. Trata-se daqueles membros da Igreja que necessitam do exemplo de Cristo frente às tribulações, mormente frente à morte, para consolar-se e não cair na perturbação pior do desespero. Em Cristo, todas as perturbações humanas alcançaram seu consolo e a sua esperança.

“O que significa, então, o fato de se ter ele perturbado senão que consolou os fracos em seu Corpo, isto é, em sua Igreja, coma voluntária similitude, para que, se alguns dos seus ainda se perturbam ante a morte iminente, dirijam para ele o olhar e não se considerem, por isso, condenados” ….

BFR0TY The Last Supper, fresco, 1460

E essa perturbação pode dar-se também quando há membros que, como Judas, usando mal seu próprio livre-arbítrio, decidem romper o pacto de fidelidade e de amor com o Mestre, e o entregam, traem-no, trocam-no por uma realidade humana. Ante essa perturbação do Corpo de Cristo, é preciso que o discípulo amado enfrente a tribulação a partir do peito de Jesus, da profunda leitura planos imperscrutáveis da infinita sabedoria a Deus, para poder dar um sentido sobrenaturais aos acontecimentos da própria vida. Como observa Agostinho, a Igreja e a comunidade cristã avançam por este mundo entre “as perseguições do mundo e os consolos de Deus”.

 

VER COM OS OLHOS DO CORAÇÃO

Somente na intimidade com o Mestre, vendo tudo com os olhos próprios do coração, é que se podem ler os diversos acontecimentos da própria vida e evitar o desalento o desânimo, sabendo que na infinita sabedoria de Deus, tudo contribui para o bem dos que amam a Deus, ou como diria Santo Agostinho: “A alma que usa desordenadamente das criaturas não consegue evadir-se da ordem do Criador, porque se ela usa mal dos bens, ele usa bem até dos males”, sempre estando reclinado no peito de Jesus.

 

REGRESSAR AO CORAÇÃO

O discípulo amado deve recordar que permanecer no seio-peito de Jesus significa também, regressar ao coração, o que inclui a necessidade de evitar a dispersão e buscar, ante tudo, momentos de silêncio e solidão para poder viver a intimidade com o Mestre. Num mundo cheio de ruídos, interiores e exteriores, e cheio de fatores dispersivos, é importante não esquecer o convite a buscar espaços de solidão e silêncio, para viver a realidade afetiva e efetiva com o Mestre.

“Insinuou-se aqui um mistério: cremos naquele a quem ainda não vemos e que, para não ser visto, se esconde na multidão. É difícil ver a Cristo em meio à multidão. Certa solidão faz-se necessária ao nosso espírito.

Deus é visto por certa solidão de atenção. A multidão faz barulho, mas tal visão requer um recesso”

Quem não escuta a voz do Mestre em seu interior, no espaço próprio do coração, não pode cumprir sua vontade. Para Agostinho a relação amorosa com o Mestre, não é só um afeto vivido na teoria, mas é uma forte experiência que compromete, que configura e transforma. Para Agostinho, o homem, por si mesmo, vive numa desordem afetiva e necessita da ação ordenada de Deus.

“Ordenai em mim o amor. Não procedais confusamente; não perturbeis nem confundais o que Deus ordenou. Ordenai em mim o amor. Amai-me a mim como a mim, amai a Deus como a Deus: não ofendais a Deus por minha causa, nem me ofendais por causa de outro, seja ele quem for, diante de mim. Ordenai em mim o amor”.

Por outro lado, Santo Agostinho tem consciência da força que tem o próprio amor, e de como o discípulo amado está chamado a transfigurar-se por amor ao seu próprio Mestre, tendo como fruto uma relação íntima com Jesus, tão forte, que Agostinho nos lembra as palavras de Paulo: “Vivo eu, mas não sou eu, é cristo que vive em mim” (GI. 2,20).

 

A SÍNDROME DE JUDAS

Há alguns anos, esteve de moda um documento inspiração gnóstica do século II, chamado Evangelho de Judas. Tal documento defende que Judas era um modelo de discípulo, já que sua traição não fez senão precipitar os acontecimentos que levariam à morte de Jesus. Segundo aquele evangelho herético, Judas era modelo a imitar, porque foi ele que ajudou Jesus a despojar-se de seu corpo e cumprir a vontade de seu Pai.

Mas, na verdade, Judas usando mal o seu próprio livre-arbítrio, renegou da sua vocação, pelo fato de ter sido escolhido e chamado pelo Mestre. Por outro lado, o gesto de Jesus de dar-lhe um pedaço de pão umedecido no molho, tem dois significados: primeiro, descobrir quem era o traidor. Segundo, um gesto de predileção e carinho, conforme o costume judaico. Judas realizou “última traição”, porque anteriormente houve outras “pequenas traições”.

Judas era também um discípulo de confiança de Jesus, pois, era o administrador do grupo. E a comunidade dos discípulos tinha depositado nele, a confiança. Porém, o evangelista São João, não perde ocasião para oferecer-nos um retrato moral de Judas, pois indica ser ele um ladrão, que roubava o que se lançava na bolsa comum (Jo. 12,6).

Santo Agostinho observa que Judas recebeu “mal” algo que era “bom”, e que os que são “bons”, devem aprender a receber “bem” os “males”, sabendo que tudo é vontade de Deus e tudo contribuí para a salvação daqueles que amam a Deus. De nada valeu a Judas aquele gesto amoroso de Jesus, pois recebeu mal um bem. Judas faz mau uso de um bem.

“Eis que por um mal se fez um bem, na medida em que se recebe bem o que é mau. Por que, então, te admiras, se foi dado a Judas o pão de Cristo, por meio do qual seria ele capturado pelo diabo, quando vês que, foi dado a Paulo um anjo do diabo, por meio do qual seria ele aperfeiçoado em Cristo? E assim, um bem prejudicou o que era mau, e um mal favoreceu o que era bom“.

 

O DISCÍPULO AMADO DIANTE DA TRAIÇÃO

Através da intimidade com o Mestre, o discípulo amado deve saber que não existem comunidades perfeitas. E que no meio delas sempre pode aparecer um Judas. Por causa do pecado surgem as paixões que alteram a paz da comunidade.

O discípulo amado que permanece em Cristo terá paciência no momento da tribulação. Através do coração de Cristo, poderá entender que Igreja e na própria comunidade local, o mal se faz presente. E é preciso ter paciência com quem ainda não é bom, para que venha a sê-lo, e orar e usar os meios da correção com amor.

 

“Não podemos negar, com efeito, que são muitos os maus; e tantos, que os bons nem se deixam ver entre eles, como os grãos de trigo não se veem na eira. Quem observa a eira pode pensar que ali só há palha. Queres encontrar os bons de uma vez? Sê bom tu, os encontrarás”.

 

 

 

PERMANECER NO SEIO E NO CORAÇÃO DE JESUS

O discípulo permanece no seio de Jesus e, nos momentos de tribulação e conflito, mudando de posição, do seio ao coração. Aí pode conhecer Jesus de verdade, e conhecer-se a si mesmo. Só a partir desse conhecimento de si mesmo em Deus, o discípulo sabe que sua força está em Deus e não em si mesmo.

Cristo viu também a sua própria debilidade e a sua limitação, patente no momento da Paixão. Por isso, Santo Agostinho convida-nos a reconhecer a nossa limitação e a nossa debilidade, e não presumir de nossas forças. A intimidade com o Mestre.

Ao refletir na traição de Pedro dirá:

“Por acaso era então Pedro mentiroso, ou respondia falsamente que amava o Senhor? Não, respondia verdadeiramente, porque respondia o que via dentro do seu coração. Quando disse, porém: “Darei minha vida por ti” quis presumir de forças para o futuro. Ora, todo homem sabe, talvez, como é no momento em que fala, mas quem sabe como será no dia seguinte? Pedro, então voltava os olhos ao seu coração quando era interrogado pelo Senhor, e respondia com confiança o que nele via: “Sim, Senhor, tu sabes que te amo”. O que te digo, tu o sabes, o que vejo aqui neste coração, tu também o vês”.

 

EXERCICIO DE MEDITAÇÃO. TEXTO

Jo. 13, 33-38

“Meus filhos, não vou ficar com vocês por muito tempo. Vocês vão me procurar, mas eu digo agora o que já disse aos líderes judeus: vocês não podem ir para onde eu vou.

Eu lhes dou este novo mandamento: amem uns aos outros. Assim como eu vos amei, amem também uns aos outros. Se tiverem amor uns pelos outros, todos saberão que vocês são meus discípulos.

Simão Pedro perguntou a Jesus: “Senhor, para onde é que o Senhor vai?” Jesus respondeu: “Você não pode ir agora para onde eu vou. Um dia você poderá me seguir”.

Pedro tornou a perguntar: “Senhor, por que eu não posso segui-lo agora? Eu estou pronto para morrer pelos Senhor!”

“Está mesmo”, perguntou Jesus: “Pois eu afirmo a você que isto é verdade: antes que o galo cante, você dirá três vezes que não me conhece”

 

PISTAS PARA A REFLEXÃO

  • Que perturbações você observa na tua vida?
  • Que perturbações você observa na tua comunidade cristã?
  • Qual o tamanho da tua perturbação quando pensas na morte?
  • Você quebrou o pacto de fidelidade com o Mestre?
  • Pense o que significa regressar ao coração e ter momentos de silêncio e solidão.
  • Que fatores dispersivos você sente na sua vida espiritual?
  • Você recebe “mal” algo que seria “bom” para você?
  • Como você retribui aos gestos amorosos de Deus?
  • Não há comunidades perfeitas. Diante da tribulação você é de apaziguar ou botar fogo na lenha?
  • Você confia nas tuas forças como Pedro?

 

CONCLUSÃO DA ORAÇÃO

 

  • Os que desejarem, podem fazer uma BREVE ORAÇÃO em voz alta
  • Os que desejarem podem elevar a Deus uma BREVE JACULATÓRIA

 

BENÇÃO E DESPEDIDA

 

  • Reza-se: Orando com Santo Agostinho
  • Formando um círculo, de mãos dadas, reza-se o PAI NOSSO
  • O sacerdote dá a benção

 

ORANDO COM SANTO AGOSTINHO

Tu, a verdade, reinas

Em toda parte

Sobre todos aqueles

Que te consultam,

E respondes; ao mesmo tempo

A todas as consultas diversas;

Que te são apresentadas.

Respondes com clareza,

Mas nem todos; entendem claramente.

Todos te consultam

Sobre o que querem,

Mas; nem todos ouvem sempre

O que querem.

Servo fiel é aquele

Que não espera

Ouvir de Ti

O que desejaria ouvir,

Mas antes deseja

Aquilo que ouve de Ti.

 

frei Salvador, oar

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