Quaresma e Santo Agostinho

Decorra a vida presente no louvor de Deus, porque a eterna alegria de nossa vida futura será o louvor de Deus. Ninguém será idôneo para a vida futura, se de certo modo agora não se exercitar para isso. Agora, portanto, louvamos a Deus, mas também lhe suplicamos. Nosso louvor é alegria, nossa oração é gemido.

 

Foi-nos prometido algo que ainda não possuímos; sendo veraz o Senhor que prometeu, alegramo-nos na esperança; entretanto, não tendo ainda o objeto de nossa esperança, gememos cheios de desejos.

É bom perseverar nesses anelos, até que venha o que foi prometido, passe o gemido, suceda apenas o louvor. Por causa destas duas fases, uma a das tentações e tribulações da vida presente, outra a futura em segurança e alegrias perpétuas, foi instituída a celebração de dois tempos: um antes da Páscoa e outro depois da Páscoa. O tempo precedente à Páscoa figura a tribulação em que nos achamos; o que agora celebramos após a Páscoa lembra a felicidade futura em que nos acharemos. Antes da Páscoa, portanto, celebramos o que vivemos; depois da Páscoa celebramos, assinalando, o que ainda não temos. Por isso, no primeiro tempo exercitamo-nos em jejuns e orações; agora, terminados os jejuns, passamos o tempo em louvores. Tal é o sentido do Aleluia que cantamos. Aleluia se traduz para o latim, como sabeis, por: ‘Louvai ao Senhor’. O primeiro tempo, portanto, representa a fase anterior à ressurreição; o segundo, a posterior à ressurreição do Senhor. Significa a vida futura, que ainda não possuímos.

Do sermão 206 de Santo Agostinho: «Voltou o tempo aniversário da Quaresma, no qual tenho a obrigação de vos dirigir uma exortação, porque tendes o dever de oferecer a Deus obras que estejam de acordo com estes dias do calendário. Tais obras, porém, não são úteis para o Senhor, mas para vós. Também nas outras épocas do ano o cristão se deve entregar com ardor à oração, ao jejum e a esmola; mas esta solenidade deve estimular inclusive aqueles que habitualmente são preguiçosos; e aqueles que já se entregam com esmero a tais ocupações devem realizá-las ainda com maior intensidade… A repetição anual da solenidade equivale a uma repetição do que Cristo Senhor sofreu por nós na sua única morte. O que teve lugar uma só vez na história para a renovação da nossa vida, celebra-se todos os anos para perpetuar a sua memória… Depois dos dias do nosso abatimento, chegará o tempo da nossa exaltação, não ainda no repouso da visão, mas na satisfação de o contemplar nas celebrações que o simbolizam…» (Antologia Litúrgica, 3774)

Comentário ao Salmo 90, II, 6-7«Escuta o Senhor: Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus. Acaso não crês que a Palavra de Deus é pão? Se a Palavra de Deus, por quem todas as coisas foram feitas, não fosse pão, não diria: Eu sou o pão vivo que desceu do céu (Jo 6,41). Aprendeste, portanto, o que responder ao tentador em meio à angústia da fome. E o que dirás se ele te tentar dizendo: «Se fosses cristão, farias milagres como muitos cristãos fizeram»? Uma vez enganado por essa perversa sugestão, tentarias o Senhor teu Deus dizendo-lhe: «Se sou cristão, se o sou ante teus olhos e me contas no número dos teus, que também eu faça algo semelhante ao que fizeram os teus santos»? Tentaste a Deus, pensando que não serias cristão se não fizesses tais coisas… Então o que dirás se o diabo te tentar dizendo assim: «Faze milagres»? Para não tentares a Deus, o que deves responder? O mesmo que o Senhor respondeu. O diabo lhe disse: Lança-te daqui abaixo! Porque está escrito: ‘Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito, e eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’ (Mt 4,6). Se te lançares, os anjos te recolherão. E poderia dar-se o fato, irmãos, de que, se o Senhor se tivesse lançado, a deferência dos anjos recolhesse a sua carne. Mas, o que lhe respondeu? Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus (Mt 4,7)… O diabo, pois, o via mortal para que o tentasse; para que o cristão fosse ensinado sendo o Cristo tentado. O que está escrito, pois? Não tentarás o Senhor teu Deus. Não tentemos, portanto, o Senhor dizendo: «Se pertencemos a ti, façamos um milagre».5º Domingo da Quaresma (A)Jo 11, 1-45:

Homilia de Santo Agostinho (Sermão 98, 6, 6)«Vem o Senhor para quem, sem dúvida, tudo era fácil e mostra-te certa dificuldade. Ficou interiormente comovido e mostrou, com o grande grito da correção, o que é necessário aos que se acham endurecidos pelo costume. Contudo, à simples voz do Senhor que chamava, desataram-se os laços da necessidade. Tremeu o poder do inferno e Lázaro foi restituído vivo. O Senhor liberta, pois, igualmente aqueles que estão mortos, pelo mau costume, há quatro dias: de fato, o que morrera havia já quatro dias, para o Cristo que o queria ressuscitar, apenas dormia. Porém, o que diz o texto? Vede como se deu aquela ressurreição. Ele saiu vivo do sepulcro, mas não podia andar. E o Senhor disse aos discípulos: Desatai-o e deixai-o caminhar! (Jo 11,44) Jesus ressuscitou o morto, eles soltaram o atado. Vede que algo no milagre corresponde à própria majestade do Deus que ressuscita. Alguém, instalado no mau costume, é chamado a atenção pela palavra da verdade. E quantos são censurados, mas não ouvem! Quem é que age no interior com aquele que ouve? Quem comunica interiormente a vida? Quem é que afasta a morte oculta e outorga a vida oculta? Acaso não é verdade que, depois das correções e admoestações, os homens se abandonam a seus pensamentos e começam a refletir consigo mesmos sobre a vida perversa que levam e sobre o péssimo costume sob o qual jazem acabrunhados? Então, desagradando-se de si mesmos, decidem mudar de vida. Ressuscitaram: reviveram os que se viram descontentes com sua vida anterior; mas, não obstante ter revivido, não podem caminhar. Estes são os vínculos da própria culpa. É, portanto, necessário que quem recobrou a vida seja desatado e se lhe permita andar. O Senhor outorgou este ofício aos discípulos, ao dizer-lhes: Tudo o que desligardes na terra será desligado no céu (Mt 18,18)».

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