Oficina de Oração Agostiniana – Março

Amados de Deus (1)

O amor e a eleição divina – parte bíblica

O tema dos Exercícios Espirituais Agostinianos de 2019 é o estudo da Carta de São Paulo aos Romanos. Paulo não fundou a comunidade cristã de Roma, nem a tinha visitado ainda. Ele escreve a carta, pelo que ouviu falar.

Em Roma havia uma colônia judaica, numerosa e ativa, de pelo menos 50.000 membros, com até 13 sinagogas, embora nem todos eram cristãos.

Embora presente, e talvez em proporção considerável, a elemento cristão de proveniência judaica, não devia constituir a maioria. Paulo fala dos cristãos vindos do paganismo. Essas duas origens traziam consigo tensões e problemas de comportamento, mas não houve divisão em duas facções, ao contrário, era uma comunidade viva e ativa.

Os temas abordados por São Paulo são vários. Há duas partes: Dogmática e Exortativa.

 

1.DOGMÁTICA.

  1. a) A situação do pecado. Paulo olha para o homem com um sentimento de confiança e simpatia. Mas sua capacidade de observação sensibilizada pela familiaridade com o AT, não lhe permite alimentar ilusões: o homem é de fato pecador. Há nele como uma insuficiência radical, pela qual suas opções, longe de aperfeiçoá-lo, abrem certas lacunas em seu sistema. O homem, ao pecar, autolimita-se.

 

  1. b) A Justificação em virtude da fé. A justificação é um ato divino onde Deus declara o pecador, inocente de seus pecados. Esta justificação baseia-se Inteiramente o sacrifício de Cristo, pelo seu sangue derramado: Agora, sendo justificados pelo seu sangue”. (Rm. 5,9). A Justificação “e um dom da graça de Deus (Rm. 3,24) que vem por meio da fé. Porém, devemos fazer algo a mais, para alcançar a justificação, que são as obra “Você vê que o homem é Justificado pelas obras, e não somente pela fé”. (Tiago 2,24).

 

  1. c) Comportamento do justificado. Uma vez que o homem foi libertado de seu estado pecaminoso, tornou filho de Deus e é guiado pelo Espírito, encontra-se em condições de expressar-se como tal num comportamento novo, típico do justificado. A fim de que a justiça prescrita pela lei fosse realizada em nós, que vivemos não segundo a carne, mas segundo o espírito”. {Rm. 8,4}

Paulo Insiste então na disponibilidade radical à Influência do Espírito: “Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm. 8,14). Esse derramamento do Espírito produz o Amor, que só o Espírito pode comunicar: “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”

(Rm.5,5). A presença do Espírito na vida do cristão, com a carga de dinamismo que comunica, impulsiona a olhar o futuro: Porque pela esperança é que fomos salvos”. (Rm. 8,24)

 

  1. d) O problema dos judeus, Paulo preocupa-se com estabelecer um ponto firme, a saber, a continuidade do povo de Deus, dada a infalibilidade da Palavra de Deus. Deus comprometeu-se e é coerente com o compromisso que fez. Procedendo segundo sua lógica incompreensível de amor, Deus, em lugar do povo judeu, escolheu o povo cristão, constituído por gentios e judeus que aceitaram Cristo e realizaram a “justiça, a que vem da fé, ao passo que Israel, que procurava uma lei que desse a justificação, não a encontrou”. {Rm. 9,30-31).

Teria sido então repudiado o povo de Deus? Paulo não quer sequer formular uma pergunta dessas; o afeto que professa a seus irmãos Judeus e seu conhecimento do AT impedem-no de fazê-lo. Se o fechamento dos judeus favoreceu, em certo sentido, os gentios, haverá no futuro uma aceitação do Messias, também por parte dos próprios judeus, o que contribuirá para o enriquecimento de todos: “Israel em peso será salvo” (Rm. 11,26).

 

2.EXORTATIVA

A parte exortativa trata quase exclusivamente do dinamismo do Amor, em que está envolto todo cristão. Paulo apela ao amor de Deus que pôs em movimento a salvação, a “oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus; é este o culto que deveis oferecer” (Rm. 12,1).

Os “corpos” na linguagem de Paulo são as relações concretas da pessoa que vive no tempo e no espaço, que converte numa verdadeira liturgia de toda a existência. É a vida que adquire sentido e valor na medida em que é oferecida a Deus.

A oferta da vida a Deus se realiza com duas condições: negando-se a aceitar do ambiente em que o cristão vive, aquelas propostas de valores contrários ao Evangelho: “Não vos conformeis com este mundo” (Rm. 12,2). E renovando a mente a cada momento para poder captar, no concreto da vida, a vontade de Deus, sempre nova: “Mas transformai-vos pela renovação do vosso espf rito, para que possais discernir qual é a vontade de

Deus: o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito” (Rm. 12,2).

 

PAULO, SERVO DE JESUS CRISTO

Paulo se apresenta aos romanos com uma série de detalhes, para que destinatários possam ter uma completa compreensão de sua pessoa e de sua identidade de apóstolo e seguidos de Jesus. Ao fazer isso, propõe uma espécie de síntese de sua fé. Não é somente a apresentação de si mesmo, mas a apresentação daquilo em que ele crê.

O primeiro atributo que Paulo propõe aos romanos é de: servo de Jesus Cristo. Em grego há três palavras que indicam “servo”: dou/os, hiperetés e diákonos. Paulo usa a palavra dou/os que significa um serviço totalizante.

Hlperetés expressa um serviço qualquer. Diákonos é um serviço particular. Paulo se apresenta como “servo” do servo sofredor do profeta Isaias.

 

ESCOLHIDO PARA O EVANGELHO DE DEUS

Depois de ressaltar a natureza de “servo”, Paulo agrega apóstolo por vocação. Aquele que aceitou a total disponibilidade de “servo”, se sente chamado, escolhido, enviado. Chamado a participar da santidade daquele

que o chamou. Enviado para levar a Boa Nova (Evangelho) aos outros, mas sempre participando da santidade. Assim ele diz: “Deus nos escolheu antes da criação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele, pelo amor”. (Ef. 1,4)

 

A S TODOS QUE MORAIS EM ROMA, “AMADOS DE DEUS”

Paulo estabelece com a comunidade cristã que estava em Roma um contato pessoal, vivo, imediato. Como ele pertence a Jesus Cristo e o serve, assim também os romanos pertencem a Jesus Cristo, são amados por Deus e chamados a ser seu povo, com vistas à salvação de todos os outros povos.

Entre Paulo e os cristãos que moram em Roma, instaurou-se uma relação de fraternidade e corresponsabilidade. Entre todos os que são destinatários do Evangelho, “estais também vós” chamados por Jesus, e, portanto, motivo de orgulho.

 

SANTOS POR VOCAÇÃO

Paulo procura transmitir aos romanos a mesma convicção:

“Vede que pelo fato de serdes amados de Deus, prediletos, vós fostes também escolhidos”.

Também vós fostes chamados para uma missão particular. Não é um privilégio, uma eleição em função de outra missão. Vossa eleição permite que vos sintais escolhidos para algo.

 

CORIFEUS DA PAZ

Como em São Paulo, chamado e eleição, -vocação e missão- estão estreitamente relacionados entre si, assim também, para os romanos, a graça e a paz não são mais que um único dom. Abrir-se à graça, acolher o dom da vocação e entrar em amizade com Deus, traz como fruto a paz, a paz do coração, que recupera a harmonia das relações entre os irmãos.

Provavelmente, este “algo” para o qual os romanos foram chamados e escolhidos por Deus, pode expressar-se na fórmula a graça e a paz. Na comunidade de Roma, onde existiam as duas linhas de Pedro e Paulo, que se tinham enfrentado em Antioquia, conviviam serenamente, sem romper a unidade e a paz da Igreja.

Desse fato podemos tirar uma forte mensagem para nós, descobrindo essa missão da Igreja de Roma: ser capaz de manter, na comunhão, orientações e sensibilidades diversas entre si, que não rompem a unidade da fé.

 

EXERCÍCIO DE ORAÇÃO

EXERCÍCIO DE IMAGINAÇÃO. Texto: Rm.1,7

Paulo, servo de Jesus Cristo, apóstolo por vocação, escolhido para o Evangelho de Deus, que pelos profetas havia prometido nas Escrituras, e que diz respeito a seu Filho, descendente de Davi segundo a carne, autenticado como Filho de Deus com poder, pelo Espírito de santidade que o ressuscitou dos mortos.

Jesus Cristo Nosso Senhor.

É por ele que recebemos a graça da vocação para o apostolado a fim de podermos trazer à obediência da fé todos os povos pagãos para glória do seu nome.

Entre todos os povos estais também vós, chamados a ser discípulos de Jesus Cristo.

A vós todos que morais em Roma, amados de Deus, e santos por vocação, graça e paz da parte de Deus, nosso Pai,

e de nosso Senhor Jesus Cristo.

 

PISTAS PARA MEDITAÇÃO

– Que significa para você ser servo de Jesus Cristo?

– Você se sente apóstolo?

-Tem consciência de que é escolhido para anunciar o Evangelho?

– De onde vem o teu poder como cristão?

– Você traz à obediência da fé aos outros irmãos?

– Na comunidade você trabalha para a glória de Deus?

– Você como observa que é amado de Deus?

 

BENÇÃO E DESPEDIDA

– Reza-se a oração de Santo Agostinho

– Formando um círculo reza-se o Pai Nosso.

– O sacerdote dá a Bênção, E todos se abraçam.

ORAÇÃO DE SANTO AGOSTINHO

Feliz aquele que vos ama,

e que por vosso amor,

ama o amigo e o inimigo!

Somente não perde nenhum ente querido

aquele para quem todos são queridos,

naquele que nunca perdemos.

E quem é este senão o nosso Deus,

o Deus que criou o céu e a terra

e lhes confere plenitude,

pois foi dando-lhes

plenitude que os fez?

Somente quem vos abandona

pode perder-vos.

Mas aonde irá ao abandonar-vos?

Para onde fugirá,

senão para longe de vossa bondade

e para perto da vossa cólera?

Onde poderia ele, no seu castigo,

não encontrar a vossa lei?

E a vossa lei é a verdade,

e a verdade sois Vós.

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