Sermão da Montanha por Santo Agostinho

Neste mês agosto, comemorativo de Santo Agostinho obtivemos um livro precioso que é o Comentário ao Sermão da Montanha de Santo Agostinho. Neste Sermão que podemos ler em Lucas 5, Jesus nos apresenta a sua doutrina. Apresentamos aqui um pouco deste texto e colocaremos o texto completo na seção livros deste site.

 

Considerações gerais

Os dois livros constitutivos do De sermonem Domini in monte [O Sermão da Montanha] são fruto dos primórdios do ministério pastoral de Agostinho como padre. Presbítero de 393 a 395, torna-se ele depois bispo coadjutor de Valério, tendo-lhe sucedido na sede episcopal de Hipona, pouco tempo após.

O novo pregador dedica-se à sua missão com o maior zelo. Desde sua conversão, apaixonara-se pelo estudo das Sagradas Escrituras.

Este tratado sobre o Sermão da Montanha enquadra-se como obra de exegese, entre doutrinal e catequética.

Tomando como base Mt 5-7, Agostinho agrupa as palavras do Senhor, no quadro do Sermão da Montanha, sob a temática das bem-aventuranças.

Afirma Portalié, no Dictionnaire de Théologie Catholique: “Em notável síntese de unção e profundidade, Santo Agostinho resume aí o que se nomearia hoje: a teologia moral de Cristo”.

 

LIVRO 1 (Mt 5)

Um programa perfeito de vida cristã.

1Quem quiser meditar com piedade e recolhimento o sermão que nosso Senhor Jesus Cristo pronunciou na montanha, tal como o lemos no Evangelho segundo Mateus, encontrará aí, creio eu, um programa perfeito de vida cristã destinado à direção dos costumes. Ousamos fazer tal afirmação, sem temeridade, pois nos baseamos nas próprias palavras do Senhor. Com efeito, eis a conclusão desse sermão, onde ele declara se encontrarem aí todos os preceitos necessários à perfeição da vida cristã: “Assim, todo aquele que ouve essas minhas palavras e as põe em prática será comparado a um homem sensato que construiu a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enxurradas, sopraram os ventos e deram contra a casa, mas ela não caiu, porque estava alicerçada na rocha. Por outro lado, todo aquele que ouve essas minhas palavras, mas não as põe em prática, será comparado a um insensato que construiu a sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, vieram as enxurradas, sopraram os ventos e deram contra a casa, e ela caiu. E foi grande a sua queda! ”. [1]

Ora, como ele não disse: “Todo aquele que ouve minhas palavras”, mas: “Todo aquele que ouve essas minhas palavras”, parece-me que quis expressamente manifestar que essas palavras pronunciadas na montanha contêm uma doutrina de tal modo perfeita para dirigir a vida cristã que aqueles cujo intento seja tomá-las como norma de vida, com razão, serão comparados ao homem que edifica sua casa sobre a rocha.

Afirmo tudo isso para tornar claro que esse sermão contém todos os preceitos de perfeição, próprios a guiar a vida cristã. Sobre tais verdades trataremos mais explicitamente à medida que a ocasião for se apresentando.

2 Cristo na montanha

Eis o início do sermão: “Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte. Ao sentar-se, aproximaram-se dele os seus discípulos. E abrindo sua boca os ensinava, dizendo…”. [2]

Se me perguntarem o que significa esse monte, responderei que pode muito bem representar a superioridade dos preceitos da nova justiça em comparação com a antiga lei judaica. O único e mesmo Deus adaptou-se muito bem ao ordenado curso dos tempos. Por meio de santos profetas e fiéis servidores, deu preceitos menos perfeitos ao povo que convinha ainda sujeitar pelo temor. E por meio de seu Filho, deu outros preceitos muito mais perfeitos ao povo que ele queria libertar pela caridade.

Com efeito, essa distribuição de preceitos menos e mais perfeitos, em harmonia com pessoas e tempo, foi ordenada por aquele que sabe adaptar ao tempo oportuno o remédio conveniente aos males do gênero humano. E não é de estranhar que sejam dados preceitos mais perfeitos em vista do Reino dos Céus e preceitos menos perfeitos em vista dos reinos da terra, pelo mesmo e único Deus que fez o céu e a terra. Dessa justiça mais perfeita é que disse o profeta: “A tua justiça é como os montes de Deus”. [3] E está ela bem simbolizada pelo monte de onde ensina o único Mestre — só ele é idôneo para ensinar-nos tantas verdades.

O Senhor ensina sentado, o que corresponde à dignidade de seu magistério.

Acercam-se dele os discípulos, a fim de que aqueles cujos corações se aproximavam mais, pelo cumprimento de seus preceitos, estivessem também mais próximos, corporalmente, na audição de suas palavras.

“E abrindo sua boca os ensinava dizendo…”[4] Este circunlóquio, “E abrindo sua boca”, talvez queira significar que o discurso será algo mais longo do que das outras vezes. A menos que se prefira entender que o evangelista quis consignar com precisão que o Senhor abriu sua própria boca, porquanto o mesmo, na Lei antiga, costumava abrir a boca dos profetas.

3 A primeira bem-aventurança — os pobres em espírito

O que diz, então, o Senhor? “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles

é o Reino dos Céus.”[5]

Lemos na Sagrada Escritura acerca da cobiça dos bens temporais que “Tudo é vaidade e presunção dos espíritos”.[6] Ora, presunção de espírito quer dizer orgulho e arrogância. Assim é dito, frequentemente, dos orgulhosos que estão cheios de si. Com razão, pois, a palavra “espírito” também significa vento. De fato, está escrito: “O fogo, o granizo, a neve, a geada, o vento[7] das tempestades”. [8] Na verdade, quem ignora que se diz dos soberbos que eles estão inchados como se estivessem cheios de vento? Isso levou o Apóstolo a dizer: “A ciência incha; é a caridade que edifica”. [9]

Logo, com razão se entende aqui que são pobres de espírito os humildes e tementes a Deus, isto é, os desprovidos de todo espírito que incha.

Essa bem-aventurança não poderia ter sido iniciada de outro modo, porque ela deve fazer-nos chegar à suma sabedoria, e que: “O princípio da sabedoria é o temor de Deus”.

[10] Enquanto, pelo contrário, “O princípio de todo o pecado é a soberba”.[11] Desse modo, que os soberbos apeteçam e procurem os reinos da terra, mas “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus”.[12]

4 os mansos

“Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.”[13] Esse tema, creio eu, é aquele do qual fala o salmista quando diz: “Tu és a minha esperança, a minha porção na terra dos viventes”.[14] Dá-nos ele aí a entender que se trata de certa firmeza e estabilidade da herança eterna. Lá, onde a alma descansará como em seu lugar próprio, em seu santo amor; assim como o corpo descansará na terra. E lá, ainda, onde ela encontrará seu alimento, como o corpo a tira da terra. Essa herança é o repouso e a vida dos santos.

Os mansos são aqueles que cedem diante das injustiças de que são vítimas, que não opõem resistência ao mal, mas que “vencem o mal com o bem”.[15]

Portanto, que os homens irascíveis briguem e pelejem pelos bens terrenos e perecíveis, mas “Bem-aventurados os mansos, porque possuirão em herança a terra”, da qual não poderão ser despojados

5 Os que choram

“Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.”[16]

O luto é devido à tristeza que sentimos pela perda de entes amados. Ora, todos os que se convertem a Deus perdem as alegrias fáceis deste mundo, alegrias que tanto amavam neste mundo. Deixam de gozar aquilo que antes os deleitava. Suas alegrias mudam de natureza e, por isso, enquanto seu coração não se inflamar pelo amor das coisas eternas, ver-se-ão aflitos por certa tristeza. O Espírito Santo, porém, logo os consolará. Precisamente por isso, é chamado Paráclito, isto é, Consolador. Em lugar da alegria passageira que perderam, ele os fará entrar na posse da eterna alegria.

6 os que têm fome e sede

“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. ”[17]

Jesus designa aqui aqueles que procuram com empenho o verdadeiro e imutável bem. Eles serão saciados com o manjar do qual o próprio Senhor declarou: “O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou”. [18] Aí está a justiça. E serão saciados com aquela água que produz em todo o que a beber “uma fonte de água jorrando para a vida eterna”, [19] como ele mesmo declarou.

7 os misericordiosos

“Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.”[20]

Proclama o Senhor que são felizes os que socorrem os necessitados, pois receberão em troca a libertação de seus próprios males.

8 os puros de coração

“Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.”[21]

Insensatos são os que buscam a Deus com estes olhos corporais, já que ele somente pode ser visto com os olhos do coração. Assim está escrito: “Buscai o Senhor com simplicidade de coração”.[22] Coração puro é o mesmo que coração simples. E assim como é necessário ter os olhos do corpo sadios, para vermos a luz do dia, assim Deus não pode ser visto a não ser que estejam purificados os olhos do coração, com os quais unicamente podemos contemplá-lo.

9 os construtores da paz

“Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus. ”[23]

A perfeição está na paz, uma paz na qual não existe luta alguma. Os pacíficos são chamados filhos de Deus, porque neles nada se opõe a Deus. Na verdade, os filhos devem se parecer com seu Pai. Encontram a paz em si mesmos aqueles que dominaram todos os movimentos de sua alma e os submeteram à razão, isto é, à mente e ao espírito.

E por ter dominado todas as concupiscências da carne, tornam-se o Reino de Deus.

Nesse Reino, tudo está em ordem perfeita, de modo que aquilo que é o mais excelente e importante no homem domina sem encontrar resistência alguma daquela outra parte que nos é comum com os animais. Mas aquilo mesmo que no homem é mais nobre, isto é, a mente e o espírito, deve estar, por sua vez, submisso a um ser mais elevado, que é a própria Verdade, o Filho único de Deus.

Com efeito, não é possível a alguém mandar em seres inferiores, a não ser que ele mesmo esteja submisso a um poder superior.

Tal é a paz concedida na terra aos homens de boa vontade. [24] Eis a vida do homem perfeito, consumado em sabedoria. Desse Reino onde reina a paz e a ordem está lançado fora o príncipe deste mundo, o qual domina sobre os perversos e rebeldes. [25]

Uma vez estabelecida e consolidada a paz interior, sejam quais forem as perseguições promovidas exteriormente por aquele que foi lançado fora, elas não farão mais do que aumentar a glória de Deus. Não poderão demolir parte alguma deste edifício. A ineficácia dessas maquinações mostra a grande solidez interior de seus fundamentos.

Eis por que o Senhor acrescenta: “Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus”. [26]

10 A graduação das bem-aventuranças[27]

Eis aí as oito bem-aventuranças. Quanto ao que segue, o Senhor dirige-se diretamente aos que se encontram ali presentes, e lhes diz: “Bem-aventurados sois, quando vos injuriarem e vos perseguirem”.[28]

As sentenças precedentes estavam expressas de modo geral, pois o Senhor não declarou: “Bem-aventurados os pobres em espírito”, porque vosso é o Reino dos Céus, mas: “porque deles é o Reino dos Céus”. Tampouco disse: “Bem-aventurados os mansos”, porque vós herdareis a terra, mas: “porque eles herdarão a terra”.

Da mesma maneira continua até a oitava bem-aventurança, quando diz: “Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus”. Contudo, daí por diante, começa a dirigir-se diretamente aos presentes. Não obstante, todas aquelas coisas já afirmadas igualmente convêm aos que ali o escutavam.

E as que diz em seguida, embora sejam especialmente dirigidas aos que o ouviam, atingem também aos ausentes e a quantos vierem a existir.

Devemos, pois, considerar atentamente o número dessas sentenças.

Como primeiro grau da perfeição, o Senhor começa com a humildade: “Bem-aventurados os pobres em espírito”. Isto é, os que não são cheios de si, os que se submetem à divina autoridade e temem as penas que podem lhes vir depois da morte, ainda que nesta vida se imaginem felizes.

Daí, chega o fiel ao segundo grau: ao conhecimento da Sagrada Escritura, na qual, em espírito de piedade, aprende a mansidão. Isso para não se ver tentado de vituperar aquilo que os ignorantes consideram como absurdo. E para não se tornar culpado de indocilidade ao suscitar obstinadas discussões.

É então que começa o fiel a descobrir os laços com que os hábitos da carne e os pecados o sujeitam a este mundo. Eis por que, neste terceiro grau, correspondente à ciência, ele chora a perda do sumo bem, sacrificado, ao aderir a bens inferiores.

No quarto grau, está o esforço aplicado pelo fiel para se apartar dos prazeres nocivos.

Aí então sente fome e sede de justiça, e lhe é muito necessária a força, pois não se abandona sem dor o que se possui com agrado.

No quinto grau, dá o Senhor aos que perseveram nesse árduo trabalho o conselho para se livrarem de seus apegos. Na verdade, sem o auxílio de poder superior, ninguém é capaz de se desembaraçar das múltiplas implicações de suas próprias misérias. Ora, este conselho tão justo é que quem deseja ser protegido por alguém que lhe é superior ajude, por sua vez, a quem lhe é mais fraco. “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.”

O sexto grau é a pureza do coração. A consciência das boas obras praticadas dá ao fiel o poder de contemplar o Bem supremo, que somente pode ser visto por inteligência pura e serena.

Enfim, o sétimo grau é a própria sabedoria, isto é, a contemplação da verdade, aquela que pacifica todo homem e imprime nele viva semelhança com Deus. “Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus. ”

A oitava bem-aventurança volta à primeira como à sua fonte, pois a mostra elevada ao último grau de perfeição. Assim, na primeira como na oitava, encontra-se expressamente nomeado o Reino dos Céus: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus”.

É então que se pode dizer: “Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo, espada?”.[29]

São, pois, sete as bem-aventuranças que conduzem à perfeição. A oitava tudo termina e manifesta. Os primeiros graus vão recebendo uns dos outros a sua perfeição para, no oitavo, retornar ao ponto de partida.

11 Relação com os sete dons do Espírito Santo[30]

Parece-me que as sete formas de ação do Espírito Santo, de que fala Isaías, [31] concordam com esses sete graus das bem-aventuranças. Importa, porém, ter em conta a ordem da enumeração, pois o profeta começa a nomeá-los pelos mais excelentes, ao passo que aqui eles estão elencados pelos inferiores. [32]

Isaías, com efeito, começa a sua enumeração pela sabedoria e termina pelo temor de Deus. Mas o princípio da sabedoria é o temor de Deus. [33] Assim, se gradualmente e como ascendendo nós os enumeramos, vemos que o primeiro dom é o temor de Deus; o segundo, a piedade; o terceiro, a ciência; o quarto, a fortaleza; o quinto, o conselho; o sexto, a inteligência; e o sétimo, a sabedoria. [34]

O temor de Deus é próprio dos humildes, dos quais aqui se diz: “Bem-aventurados os pobres em espírito”; isto é, os que não são cheios de si e orgulhosos. A estes declara o Apóstolo: “Não te ensoberbeças, mas teme”. [35]

A piedade convém aos mansos, porque aquele que com piedade investiga e honra as Escrituras Sagradas não critica o que ainda não compreende; e, portanto, não resiste a coisa alguma, o que constitui a virtude da mansidão. Daí se dizer: “Bem-aventurados os mansos”.

A ciência está em harmonia com os que choram, os quais conhecem agora, pelas Escrituras, em que duro cativeiro estavam aprisionados. Sem o saber, desejavam as algemas, como se fossem coisas boas e úteis. Por isso, é dito: “Bem-aventurados os que choram”.

A força convém aos que têm fome e sede. Eles trabalham anelando o gozo dos verdadeiros bens e desejando desapegar seu coração do afeto às coisas terrestres e materiais. Daí se dizer: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça”.

O conselho corresponde aos misericordiosos. Com efeito, o único remédio para livrar-nos de tantos males é perdoarmos do mesmo modo como queremos ser perdoados; e ajudarmos os outros em tudo o que podemos, como desejamos ser ajudados em nossas incapacidades. Por esse motivo está dito: “Bem-aventurados os

misericordiosos”.

A inteligência pertence aos que têm o coração puro, cujo olhar purificado pode chegar à contemplação. Ver “o que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e o coração do homem não percebeu”.[36] Deles está dito: “Bem-aventurados os puros de coração”.

A sabedoria convém aos pacíficos, em quem tudo já está em perfeita ordem. Neles, movimento algum de revolta levanta-se contra a razão, mas tudo obedece à parte espiritual do homem, como ele mesmo obedece a Deus.[37] Destes está dito “Bem-aventurados os pacíficos”.

12 O prêmio prometido

O prêmio, porém, é um só: o Reino dos Céus, que vem designado com diversos nomes, conforme os diferentes graus.

No primeiro grau, como convinha, foi expressamente nomeado o Reino dos Céus, pois é a suma e perfeita sabedoria da alma dotada de razão. Estas palavras: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus”, equivalem a: “O princípio da sabedoria é o temor do Senhor”.[38]

Aos mansos foi prometida a herança como testamento do Pai àqueles que sabem buscá-lo com piedade, conforme expressam as palavras: “Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra”.

Aos que choram, lhes é oferecido o consolo. Sabem eles o que perderam e em que abismo de males estiveram mergulhados. “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.”

Aos que têm fome e sede, lhes é assegurada a fartura como reconforto necessário para se refazerem no meio das lutas e trabalhos em que estão empenhados, para a obtenção da salvação eterna. “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.”

Misericórdia receberão em recompensa os misericordiosos, pois praticam o verdadeiro e ótimo conselho de ir em ajuda dos fracos, a fim de obterem eles mesmos o socorro de alguém mais forte. “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. ”

Aos puros de coração pertence a faculdade de ver a Deus, pois só eles possuem o olho bastante puro, com o qual podem compreender as realidades eternas. “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. ”

Aos pacíficos é outorgada a semelhança com Deus, porque possuem a perfeita sabedoria e estão conformados à imagem do Criador pela regeneração do homem novo.

“Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus. ”

Ora, todas essas promessas podem ser realizadas nesta vida, como cremos que se realizou com os apóstolos. [39]

E não há palavra alguma que possa expressar aquela transformação perfeitíssima que nos tornará semelhantes aos anjos e que nos é prometida após esta vida.

13 Significado misterioso do número oito

“Bem-aventurados os que padecem perseguição pela justiça, porque deles é o

Reino dos Céus.”

Essa oitava bem-aventurança que é retorno à primeira e que nos mostra o homem elevado à perfeição, podemos talvez compreendê-la já figurada no Antigo Testamento, pela circuncisão feita no oitavo dia. Também pela ressurreição do Senhor depois do sábado, no oitavo dia, que é também o primeiro. Ou pela celebração dos oito dias que seguem a regeneração do homem novo. [40] E pelo próprio número de Pentecostes. Com efeito, o número sete, multiplicado sete vezes, resulta em quarenta e nove. Acrescenta-se um oitavo para que se completem cinquenta e voltamos ao ponto de partida. Nesse dia, foi enviado o Espírito Santo pelo qual somos conduzidos ao Reino dos Céus, e que nos põe na posse da herança. Dá-nos ele o prêmio de sermos consolados e alimentados; a misericórdia nos é outorgada, assim como a pureza e a paz. Aperfeiçoados desse modo, tornamo-nos capazes de suportar pela verdade e a justiça todas as perseguições exteriores que nos atingem.

Prossegue o Senhor: “Bem-aventurados sois, quando vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e regozijai-vos, porque será grande a vossa recompensa nos céus”. [41]

Quem procura na profissão cristã as delícias deste mundo e o gozo dos bens temporais advirta que nossa felicidade é todo interior. Assim o anunciou o profeta, dizendo da alma cristã: “Toda a glória da filha do rei está no seu interior”. [42]

Com efeito, maldições, perseguições e difamações são preditas, vindas do exterior.

Mas por todas essas coisas será grande a recompensa no céu, a qual já agora recebem os corações dos que as suportam. Podem eles dizer com o Apóstolo: “Nós nos gloriamos também nas tribulações, sabendo que a tribulação produz a perseverança; a perseverança, uma virtude comprovada; a virtude comprovada, a esperança. E a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”.[43]

Não basta, porém, sofrer essas tribulações para recolher o prêmio, mas carece aguentá-las pelo nome de Cristo, não apenas com paciência, mas ainda com alegria.

Quantos hereges iludem os outros em nome do cristianismo, dizendo padecer provações. E, contudo, estão excluídos dessa recompensa, porque não foi dito apenas: “Bem-aventurados os que padecem perseguição”, mas foi acrescentado: “pela justiça”. Ora, onde não há fé verdadeira não pode haver justiça, pois o “justo viverá pela fé”.[44] Tampouco os cismáticos presumam obter essa recompensa, porque de igual modo onde não há caridade não pode haver justiça, porquanto “a caridade não pratica o mal contra o próximo”.[45] Com efeito, se tivessem caridade não despedaçariam “o corpo de Cristo, que é a Igreja”.[46]

 

Notas

[1] Mt 7,24-27. É interessante observar que o autor começa o seu comentário com a mesma citação evangélica

com a qual terminará a obra: Mt 7,24-27, acerca do homem que edifica sobre a rocha. Realiza assim um

entrelaçamento na temática básica das exortações: não basta ouvir, mas é preciso pôr em prática os ensinamentos

do Senhor. Agostinho sempre se manifestou extremamente coerente e radical nas suas exigências.

[2] Mt 5,1.2.

[3] Sl 36(35),7.

[4] Mt 5,2.

[5] Mt 5,3.

[6] Ecl 1,14, cf. a LXX.

[7] Vento: spiritus, no latim.

[8] Sl 148,8.

[9] 1Cor 8,1.

[10] Eclo 1,16.

[11] Eclo 10,15.

[12] Mt 5,3.

[13] Mt 5,4.

[14] Sl 142(141),6.

[15] Rm 12,21.

[16] Mt 5,5.

[17] Mt 5,6.

[18] Jo 4,34.

[19] Jo 4,14.

[20] Mt 5,7.

[21] Mt 5,8.

[22] Sb 1,1.

[23] Mt 5,9.

[24] Lc 2,14.

[25] Jo 12,31.

[26] Mt 5,10.

[27] Nos cap. 3 a 12, deste primeiro livro, particularmente neste em que se encontra esta nota, temos algo da

Doutrina agostiniana sobre a contemplação. Santo Agostinho é renomado mestre de vida espiritual. Para ele, a ascese requer esforço, recolhimento, silêncio. Mas o caminho não é traçado apenas por atividades da alma, recebe impulso graças às bem-aventuranças evangélicas e aos dons do Espírito Santo. O caminho ascensional apontado pelas bem-aventuranças parte da pobreza de espírito, que para Agostinho significa humildade, até a paz, que traz a ordem interior e a reconciliação do homem todo, consigo mesmo e com Deus. Os dons do Espírito Santo que sustentam essa caminhada vão do temor de Deus — começo da sabedoria — até a mesma sabedoria, a qual coincide com a contemplação e possui suas prerrogativas. Cf. Agostino Trapè, Saint Augustin, l’homme, le pasteur,le mystique, tradução do italiano, Paris: Fayard, 1988, p. 271.

[28] Mt 5,11.

[29] Rm 8,35.

[30]. Neste capítulo, Santo Agostinho desenvolve o mesmo tema que no capítulo anterior, mas insistindo sobre as virtudes ou deveres que, conforme o Salvador, são a condição mesma da bem-aventurança e da perfeição. As virtudes especialmente recomendadas correspondem uma a uma à ordem da ascensão marcada pelo profeta Isaías

(11,2.-3). Do temor que torna humildes, os cristãos chegam à piedade pela doçura; à ciência, gemendo sobre as tristezas desta vida; à força, se possuem fome e sede de justiça; ao dom do conselho pela misericórdia que os manterá ao abrigo das dificuldades; à inteligência pela pureza do coração. É então que virão a gozar, na sabedoria, da paz e do repouso. “Tal é a paz dada na terra aos homens de boa vontade”, diz Santo Agostinho. Cf. F. CAYRÉ, La Contemplation Augustinienne, Paris: Desclée de Brouwer, 1954, p. 60-3.

[31] 11,2-3.

[32]. Em diversas ocasiões, Santo Agostinho trata do relacionamento dos dons do Espírito Santo com a vivência das bem-aventuranças, neste mundo, para a obtenção da sabedoria. Três documentos são os mais completos: 1) este início de comentário sobre o Sermão da montanha (1,1-4); 2) alguns parágrafos de A doutrina cristã (2,9-11[PatrPaulus 17, 2002, 92-5]); 3) o s. 347, sobre o temor de Deus. Em todos eles encontramos a declaração da origem sobrenatural da sabedoria como dom do Espírito Santo. Igualmente, são postos em relevo os maravilhosos efeitos espirituais produzidos na ordem intelectual pela contemplação; e na ordem moral, pela paz que a acompanha. A sabedoria sobrenatural conduz o cristão já nesta vida a certa visão de Deus. Tal afirmação volta como um refrão a cada página. Essa visão de Deus é a própria contemplação. O Sermão da montanha presta-se melhor do que qualquer outra página inspirada para a explicitação dessa doutrina. Cristo não prometeu aos corações puros que eles verão a Deus? Essa visão não será apenas para o céu, pensa Santo Agostinho. Começa aqui na terra, com os dons da inteligência e da sabedoria, que ele relaciona com as bem-aventuranças em questão. Cf. F.CAYRÉ, op. cit., p. 56, 51, 133, 134.

[33] Eclo 1,16.

[34] O bispo de Hipona esquematiza, esforçando-se para reduzir o oito bem-aventuranças a sete, conforme os sete dons do Espírito Santo. Nota-se aí os números simbólicos: sete, oito, três. O importante está no ensino posto em destaque. Cf. A. G. HAMMAN, Explication du Sermon de la Montagne de saint Augustin, Paris: Desclée de Brouwer, 1978, p. 28, n. 4.

[35] Rm 11,20.

[36] Is 64,4; 1Cor 2,9.

[37] Nas suas Retractationes, Agostinho faz algumas elucidações necessárias às afirmações feitas nesta passagem a respeito da ausência no cristão de qualquer revolta contra a própria razão. Diz ele textualmente: “Nesta vida, com efeito, não pode acontecer a ninguém que a lei oposta ‘à lei da razão’ (Rm 7,23) deixe de se fazer sentir em seus membros. E mesmo se o espírito do homem resistisse bastante para não cair no consentimento, não deixa de ser verdade que alguma resistência se produziria. Por conseguinte, estas palavras: ‘Sem que sintam movimento algum de revolta contra a razão’ poderão ser entendidas neste sentido: ‘que os pacíficos, ao domar as concupiscências da carne, proponham-se como fim atingir essa paz a ser conquistada de maneira total’” (Retractationes 1,19,1).

[38] Eclo 1,16; Sl 111(110),10; Pr 9,10.

[39] Lemos, neste comentário do Sermão da montanha, Santo Agostinho a explicar a bem-aventurança dos pacíficos dizendo que já nesta vida seria possível atingir a paz completa da alma, sem se deixar perturbar de modo algum pelas paixões. E acredita ele que os apóstolos tenham realizado tal ideal. Agora, no fim de sua vida, julga serem essas afirmações muito absolutas e que seria melhor entender a ausência de perturbações e a supressão das paixões de modo mais relativo: somente no céu o homem gozará da paz completa. Eis o que vem afirmado nas suas Retractationes: “É preciso entender minha fórmula não no sentido de que os apóstolos, no curso de sua vida terrestre, não provaram nenhum movimento da carne, oposto ao espírito, mas que nós podemos chegar, aqui na terra, ao mesmo grau que eles, isto é, conforme a medida da perfeição humana, tal como seja possível neste mundo. Mas não se trata da total plenitude que esperamos numa paz absolutamente plena, e que só possuiremos quando dissermos: ‘Morte, onde está o teu aguilhão?’ (1Cor 15,56)” (Retractationes 1,19,2). Em resumo, Agostinho faz questão de marcar a diferença entre as duas vidas: a desta terra e a do céu, mas mantém a opinião de que um real estado de perfeição é possível desde aqui, ainda que seja inferior ao do céu. Esse estado é um dom do Espírito Santo.

[40]. Isto é, o batismo.

[41] Mt 5,11.12.

[42] Sl 44,14.

[43] Rm 5,3-5.

[44] Hb 2,4; Rm 1,17.

[45] Rm 13,10.

[46] Cl 1,24.

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