SANTO AGOSTINHO – A BUSCA DE DEUS E DA ALMA

Ó Senhor, cumpre em mim Tua obra e revela-me essas páginas! ” Com estas palavras, o Bispo Agostinho de Hipona, aos 43 anos de idade, abre o seu coração. Não fora fácil o caminho de sacerdote, que, dentro do silêncio das noites africanas, invocava o auxílio divino. Agostinho conhecera os prazeres do mundo, a sensualidade das festas pagãs, o aplauso das multidões deslumbradas por sua oratória. E quando, finalmente, se voltou para dentro de si, já era bispo há pelo menos dois anos, venerado em toda a África. Reconstruindo sua existência desde o princípio, ele visa a expurga-la de toda culpa, para entregá-la novamente a Deus. Ao escrever as Confissões, numa exposição por vezes ingênua de todos os seus sentimentos e conflitos até a reconquista da fé, Agostinho dirige-se principalmente a Deus. Mas não esquece o rebanho que lhe foi confiado: “Quem eu sou nesse exato momento é o que desejam saber muitos. Mas para que desejam saber isso? Para congratular-se contigo, ó Senhor, ouvindo como eu avancei por obra Tua pelo Teu caminho, e para rezar por mim, sentindo quanto meu peso me faz retardar o passo. Se assim for, é para esses que falo”.

SANTO AGOSTINHO (354-430)

 A perdição da alma reside em algumas peras

 Agostinho nasceu a 13 de novembro de 354, em Tagaste, pequena cidade da Numídia, atual Argélia. Sua infância e adolescência transcorreram principalmente em sua cidade natal, no ambiente limitado de um povoado perdido entre montanhas. Mais tarde, descreveria em cores carregadas este  período.  “Cometia pequenos furtos  na  despensa  da casa  ou  na  mesa,  por gulodice ou para ter algo a dar a meus camarada. Mesmo nos jogos, muitas vezes conseguia, levado pela ânsia de superioridade, vitórias fraudulentas”. Um furto de peras ficou-lhe sobretudo na memória. “Fi-lo não premido pela necessidade, mas por desprezo à justiça e excesso de maldade”. Suas observações sobre a severidade do ensino da época são bem mais equilibradas, encerrando um protesto ainda hoje válido: “Para aprender tem mais valor uma curiosidade livre do que a coerção baseada no medo”. “Quantas misérias e enganos experimentei naquela época, quando era rapazinho e me propunham, para viver direito, a obediência àqueles que me instruíam, para que nesse mundo construísse minha imagem…” De Tagaste, Agostinho vai para Madaura, onde inicia os estudos de retórica. O rapaz parece talhado para a oratória. Lê e decora trechos de poetas e prosadores latinos, dentre os quais Virgílio e Terêncio. Adquire, com Varrão, noções de caráter enciclopédico. Aprende regras elementares de música, física e matemática. Recebe tinturas de filosofia, o suficiente para compreender certos poetas. Em compensação, jamais dominará o grego. Agostinho fará os estudos superiores em Madaura e Cartago. Depois de longos anos receberá, finalmente, de acordo com os programas da época, o título de vir eloquentissimus atque doctissimus.

 Onde está a felicidade?

 “Vim a Cartago, e uma multidão de torpes amores rodeou-me de todo lado. (…) Amar e ser amado era para mim uma coisa deliciosa, tanto mais quanto podia também possuir o corpo da pessoa amada”. Na realidade, porém, Agostinho não era o pecador que ele descreve nas suas Confissões. Segundo o testemunho de um adversário, o bispo donatista (herético) Vicente de Cartena, o estudante Agostinho era um jovem ponderado, dedicado aos livros. Não que lhe faltassem oportunidades mundanas. Cartago, a maior cidade do Ocidente latino depois de Roma, era um dos grandes centros do paganismo, que dois séculos de doutrina cristã ainda não haviam conseguido derrubar. A procissão anual à deusa do céu (a antiga Tanit dos fenícios) atraía multidões ávidas de prazer, vindas de todas as partes da África. Na grande metrópole realizavam-se os espetáculos sensuais, comedias e pantomimas que contavam as aventuras eróticas de deuses e homens. Agostinho, um rapaz de apenas dezessete anos, deixou- se cativar pela alegria e esplendor das cerimônias em honra dos milenares deuses protetores do império. Em Cartago permanece durante três anos, unindo-se a uma mulher em concubinato – o que as leis e costumes da época consideravam perfeitamente normal. “Tinha só a ela e era-lhe fiel, como um marido”, escreve mais tarde. “Tive de experimentar com ela, às minhas custas, a diferença entre um compromisso conjugal criado para procriar filhos e o acordo de um coração apaixonado, do qual a prole nasce ainda que não desejada, mesmo que depois se seja levado a amá-la”. Referia-se a seu filho Adeodato, nascido em 373. “Naquele período tão incerto, estudava os livros de eloquência, na qual desejava destacar- me com um fim reprovável, por orgulho, pelo prazer da vaidade humana. Seguindo, portanto, a ordem tradicional do ensino, chegara a um livro, de Cícero…” Continha ele uma discussão imaginária entre Cícero e Hortênsio, outro grande orador romano, em torno do valor da filosofia. Cícero demonstrava que a verdadeira felicidade reside na busca da sabedoria. Agostinho sentiu-se fascinado. Os dezenove anos de sua vida pareceram-lhe completamente desperdiçados. A busca e a investigação tornaram-se, daquele momento em diante, seu objetivo primordial. De início, decidiu dedicar-se ao estudo das Escrituras, mas logo se cansou: o admirador de Virgilio, Terêncio e Cícero ficou desiludido diante do estilo simples da Bíblia.

 O mestre da eloquência e um bêbado trilham caminhos iguais

 De volta à cidade natal, Agostinho abre uma escola particular, onde ensina gramática e retórica. Gosta de ensinar; durante treze anos esta será sua profissão. Seus múltiplos interesses intelectuais, entre os quais o ocultismo e a astrologia, não o impedem de tornar-se excelente professor, capaz de despertar a curiosidade dos alunos. No outono de 374 deixa Tagaste, transferindo-se para Cartago. Mais uma vez dedica-se ao ensino da retórica. “Os estudantes receberam minha ordem de aprender, além de literatura, a refletir e a habituar seu espírito na concentração sobre si mesmos”. Os cartagineses, porém, são demasiado turbulentos. Agostinho segue para Roma, em 383. Pouco tempo depois verificaria que os jovens romanos, embora mais quietos e gentis, têm o hábito de abandonar as aulas na ocasião em que devem pagar os honorários aos mestres. A luta contra os maus pagadores dura um ano, até que um concurso lhe dá a cátedra de eloquência em Milão. Igrejas majestosas ao lado de templos pagãos; teatros e circos que nada ficavam a dever aos romanos; assim era Milão, na época a capital administrativa da parte ocidental do império, a residência do imperador. Era, sobretudo, uma cidade onde havia a possibilidade de fazer carreira. Agostinho consagrava as manhãs aos cursos de eloquência, passando as tardes nas antecâmaras dos ministérios. Esperava obter a presidência de um tribunal ou posto de governador de uma província. Era, à primeira vista, um homem feliz: pago pelo Estado, personagem quase oficial, respeitado como professor. No entanto, dominava-o uma profunda inquietude quanto aos rumos da sua existência. Por volta dos fins de 385, o mestre de eloquência é escolhido para recitar a saudação anual do imperador. Agostinho sai de casa com alguns amigos, dirigindo-se ao palácio imperial. “Ia para mentir”, escreverá ao lembrar a oração de louvor em honra de Valentiniano II, então com catorze anos. No caminho encontra um “pobre mendigo bêbado, que ria e fazia arruaça”. A cena, embora o aborreça, revela-lhe um aspecto da verdade que procurava. O bêbado, com um pouco de dinheiro, alcançara a felicidade. “È claro que essa não era autentica alegria, eu sei disso. Mas por acaso era autentica a alegria que eu procurava com as minhas ambições e enredos tortuosos? Numa noite ele digeriria o vinho e sua bebedeira passaria; eu, ao contrário, iria dormir e acordaria com meu tormento, hoje, amanhã, quem sabe até quando…” A inquietude é tema tipicamente agostiniano, um aspecto permanente de seu desenvolvimento. O despertar de seu espírito crítico levou-o a abandonar o cristianismo que sua família professava. Agostinho adotou o maniqueísmo de Mani, profeta persa que pregava uma doutrina na qual se misturavam Evangelho, ocultismo e astrologia. Segundo Mani, o bem e o mal constituíam princípios opostos e eternos, presentes em todas as coisas. Era uma religião teoricamente severa, mas cômoda na prática: o homem não era culpado por seus pecados, pois já trazia o mal dentro de si. Ninguém era obrigado a aceitar a fé sem antes discuti-la e compreendê-la. A doutrina seduziu, como ele mesmo diria: “um jovem amante da verdade, já orgulhoso e loquaz devido às disputas mantidas na escola dos homens doutos”. O abandono do maniqueísmo viria mais tarde, ocasionado pela insatisfação das respostas que a doutrina oferecia. Seu lugar seria temporariamente preenchido por um profundo ceticismo.

 Uma canção de criança pode mudar uma vida

 Entre os dignitários procurados por Agostinho figurava Ambrósio, bispo de Milão, um dos homens mais poderosos do império. O jovem professor buscava com ele uma colocação oficial. Em vez disso, encontrou respostas para algumas de suas dúvidas. “Esse homem de Deus acolheu-me como um pai. Eu imediatamente o amei’. Passa a assistir, todos os domingos, aos sermões de Ambrósio. Recomeça a ler os Evangelhos. Procura discutir com o sacerdote, que, entretanto, se nega ao debate. Ambrósio sabe que, para o antigo maniqueu, disputas filosóficas têm menos valor do que a aceitação da crença cristã por intermédio da fé.

Por esta época volta para a África a mulher com quem vivera durante catorze anos. A separação foi provocada pela mãe de Agostinho, Mônica, que desejava para o filho uma união cristã, e que chegou ao ponto de lhe arranjar uma noiva. Agostinho, em seus escritos, jamais procurou justificar a sua fraqueza e o excesso de zelo materno. Ao contrário, falará com remorso de sua união ilegítima e da concubina cujo nome jamais ousará dizer em suas Confissões. As dúvidas espirituais de Agostinho eram partilhadas por dois amigos, Alípio e Nebrídio. Tinham, os três, abandonado a família para viver juntos uma nova experiência. “Éramos três bocas de pobres famintos, que desabafávamos entre nós nossa miséria e esperávamos que nos outorgassem alimento no momento justo”. Ao lado de seus companheiros, decidiram juntar seus bens e dedicar-se à filosofia. Mas havia uma dificuldade: como suas noivas e esposas acolheriam o projeto? Alípio aconselhava Agostinho a permanecer solteiro, para entregar-se totalmente aos estudos e meditações. Este, porém, como disse nas Confissões, “estava bem longe da grandeza de alma desses sábios. A mim, acariciava-me a morbidez da carne e com mortífera suavidade arrastava a minha cadeia, temendo livrar-me dela e rejeitando essas palavras de incitação ao bem e essa mão libertadora como quem sente remexer uma ferida”. Em 386 chega  à  resposta  definitiva.  Enquanto Alípio  e  Agostinho meditam,  uma  voz infantil, vinda da casa da vizinha, repetia: “Toma, lê”. Era o refrão de uma canção infantil que a criança entoava. “Refreando o ímpeto das lágrimas, levantei-me, interpretando essa voz como uma ordem divina’. O livro está lá: São Paulo. Toma-o, abre-o ao acaso e lê: “Não nas orgias e nas bebedeiras, não nos deslizes e nas impudências, não nas discórdias e na inveja, mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não deis à carne concupiscências”.

 A meditação se inspira no murmúrio da água .

 Na pequena vila de Cassiciaco, Agostinho encontra o lugar ideal para seus estudos e meditações. As frias manhãs de outono e inverno transcorrem durante discussões. As noites são dedicadas ás preces. Em Cassiciaco ele escreve suas primeiras obras: De Vita Beata, acirrada polêmica contra os descrentes; Contra Acadêmicos; De Ordine, motivada pelo murmúrio da água que corria junto às termas – um estudo sobre a ordem e a harmonia da natureza governada por Deus. Ali são também escritos os Solilóquios, uma invocação quase contínua a Deus. Terminadas as férias, Agostinho escreve a Milão, dizendo que arranjassem “outro vendedor de palavras para os estudantes”. Permanece em Cassiciaco até março de 387. depois volta à cidade para assistir às aulas de catecismo. Na noite de vigília da Páscoa, juntamente com Alípio e seu filho Adeodato, Agostinho recebe o batismo das mãos de Ambrósio. Era o amanhecer de 25 de abril de 387, dia da Ressurreição. Agostinho resolveu retornar à África, para realizar, na terra natal, seu ideal de vida monástica. A viagem, porém, foi retardada pela doença de sua mãe, vítima de uma febre maligna, que a levaria à morte em poucos dias. “Com apenas 56 anos incompletos, tendo eu 33, essa alma religiosa e devota libertou-se do corpo”. O grande sonho de Mônica se realizara: o filho entregara- se de corpo e alma ao cristianismo.

 Agostinho chega à África em 388. Cinco anos haviam passado desde que, desgostoso com a inquietude dos estudantes cartagineses, partira para Roma. Volta à Tagaste, onde vende a propriedade deixada pelo pai e distribui o dinheiro entre os pobres. Conserva apenas uma pequena porção de terra, onde, ao lado dos amigos Alípio e Ovídio, funda o primeiro mosteiro agostiniano. São poucos os discípulos, e a regra que os une não é a das ordens monásticas orientais. Seu ideal é a contemplação, o otium deificante. Mas ao misticismo junta-se a necessidade de aprofundar definitivamente os problemas do espírito. Prova disso é o De Diversis Quaestionibus, nascido das discussões no interior do mosteiro. Nos dois anos de permanência em Tagaste, Agostinho escreve outros livros. De Música, iniciado em Milão, De Genesi (contra os maniqueus). De Vera Religione, considerado uma de suas primeiras obras-primas. Neste livro seu interlocutor é Adeodato, que, com apenas dezesseis anos, revela uma maturidade e perspicácia que assombram o pai. O rapaz consegue acompanhar Agostinho em seus difíceis argumentos sobre o valor das palavras. Somente em raros momentos confessa hesitações: “Até aqui minha inteligência não chega…” Então o raciocínio de Agostinho torna-se mais simples, mais discursivo. Adeodato morreria no ano seguinte, com apenas dezessete anos. Muitos, porém, o substituíram, continuariam o ideal que animava os habitantes do mosteiro de Tagaste, dividindo- se entre a ação e a vida contemplativa.

 O apelo da multidão: um pastor para enfrentar os leões vorazes

 No início de 391, a chamado de um funcionário imperial, Agostinho segue para Hipona. A cidade, com cerca de 30 mil habitantes, funcionava com grande centro comercial: no seu porto era embarcado o trigo enviado a Roma. Encostada nas montanhas cobertas de pinheiros, a segunda metrópole africana em importância gozava de posição privilegiada, sendo até mesmo bem protegida por fortificações. Certo dia Agostinho assistia à missa quando o velho bispo da cidade, Valério, começou a explicar ao povo as necessidades da diocese, acentuando a urgência de ter um sacerdote que o ajudasse. Da multidão elevou-se, cada vez mais distinto, o pedido: “Agostinho padre”. Agostinho procurou resistir, defendendo a tranquilidade de sua vida monástica, mas a insistência da população triunfou: com os olhos cheios de lágrimas, ajoelha-se frente a Valério e é ordenado sacerdote. Tem 37 anos e sabe que pesadas tarefas o esperam; terá de lidar com necessidades objetivas do povo, ao lado de suas preocupações espirituais. Seu temperamento contemplativo, porém, permanecerá sempre fiel aos ideais de Cassiciaco e Tagaste. Funda, com Alípio, um segundo mosteiro. Seus discípulos serão, mais tarde, bispos em várias cidades da África – o catolicismo deste continente será marcadamente agostiniano. Em 396, atendendo ao pedido de Valério, Agostinho é sagrado bispo auxiliar. Conserva o hábito de penitente, recusando-se a usar anel e mitra. Desde os primeiros dias de sua sagração, teve de se defrontar com “leões vorazes”, os heréticos que estavam por toda parte. Ele mesmo, em seu livro sobre heresias, chegaria a contar 88. A principal delas era a seita dos donatistas, que, em fins de 312, se havia separado da Igreja, alegando que os católicos mostraram-se demasiado servis ao poder imperial por ocasião das perseguições de Diocleciano. Na época, os donatistas lutavam violentamente, e não só com discussões. O próprio Agostinho salvara-se por milagre de uma emboscada. Um outro bispo fora ferido de morte diante altar. Ainda quando simples padre, Agostinho havia percebido a gravidade do cisma que se desencadeava sobretudo nas regiões berberes menos romanizadas, entre os pobres do campo oprimidos pelos proprietários rurais. Na agitação donatista havia um amplo aspecto de revolta social. Camponeses, escravos e desertores incendiavam e saqueavam os grandes domínios. Sessenta cristãos já haviam sido trucidados. Era tempo, como escrevia Possídio, de que a Igreja “longamente humilhada reerguesse a cabeça”. Agostinho iniciou a luta convidando os chefes donatistas para discussões públicas. Escreve contra eles mais de uma dúzia de livros e opúsculos, nos quais procura demonstrar que a santidade da Igreja universal não pode ser negada ou destruída pelas culpas de alguns de seus membros.

 

É preciso paciência diante de olhos em chamas

 No início do século V, caracterizado por perseguições e heresias, Agostinho é um dos personagens mais destacados. As desordens desencadeadas pelos donatistas levam o poder oficial a intervir. Em 411 é organizada uma grande conferência em Cartago; 279 donatistas, enfrentam 264 bispos católicos – entre os quais Agostinho – numa discussão pública. Agostinho, “o lobo mortífero que ameaça destruir nosso rebanho”, como diziam os donatistas, domina a reunião. A 26 de junho de 411, o cisma era suprimido legalmente. Grande parte da doutrina agostiniana se desenvolve neste período, nascida nos choques em que o bispo de Hipona intervém não só como representante oficial da Igreja, mas também a título pessoal, por uma profunda necessidade de sua inteligência. Por isso, as batalhas que trava têm um toque particular, tornam-se verificações e pesquisas que contribuem para desenvolver suas opiniões. Multiplicam-se encontros, discussões públicas, sínodos e concílios, mais numerosos que os de Roma. Mas em nenhuma ocasião Agostinho – sempre orador oficial – esquece o fato de que mais valioso que a palavra é o amor, de que os heréticos se persuadem com exemplos de amor fraterno, não com argumentações sutis. “Os olhos dos doentes queimam, por isso são tratados com delicadeza… Os médicos são delicados até com os doentes mais intolerantes: suportam o insulto, dão o remédio, não revidam as ofensas. Fique bem claro que não somos (católicos e donatistas) adversários: há um que cura e outro que é curado”.

 A espada dos bárbaros é a cólera dos antigos deuses

 24 de agosto de 410. Uma terrível notícia abala o mundo: Roma, a capital do império, a cidade sagrada que desde a ocupação gaulesa de 387 a.C. nunca mais enfrentara a desonra da invasão, fora tomada por visigodos de Alarico. Forçando os muros aurelianos da Porta Salária, os bárbaros dedicam-se ao saque, incendiando e causando depredações. Mensageiros apressados trazem notícias trágicas, dizem que os cadáveres são tantos que não é possível enterrá-los. E agora, seguido por uma longa fileira de carros com os tesouros roubados dos templos, Alarico dirige-se para o sul, para empreender a conquista da África. Um mito apagou-se. Durante séculos, pareceu que Roma era a predileta dos céus. Primeiro, protegida pelos deuses que Enéias trouxera de Tróia, depois pelo Deus que Pedro trouxera de Jerusalém. Agora não se podia mais crer nisso. A fraqueza do império – que precisou consentir na entrada pacífica dos bárbaros em seu território, que tivera de recrutar corpos militares inteiros entre os recém-chegados, que vira seus recursos desperdiçados nas lutas entre pretendentes a imperador – tornava-se patente. No Ocidente empobrecido, afastado das importantes rotas comerciais que asseguravam a riqueza de Constantinopla, a autoridade imperial diluiu-se, substituída pela concentração do poder em mãos dos grandes proprietários de terras. Somente a Igreja sobreviveria, conservando, em sua estrutura baseada na divisão administrativa do império, os vestígios da civilização romana. Somente a Igreja dispunha de elementos intelectualmente capazes, submetidos a uma rígida organização, de modo a conservar a centralização que caracterizara o mundo romano. A vontade única do imperador foi aos poucos substituída pela vontade única do bispo de Roma. Diante dos refugiados que fugiam à aproximação dos visigodos, diante daqueles que diziam que na ruína de uma cidade perecera todo o império, eleva-se a voz de Agostinho: “Vamos, cristãos, germes celestes, peregrinos na Terra, que andais à procura da cidade celeste nos céus, que desejais juntar-vos aos anjos, compreendei bem que estais aqui de passagem…” São palavras que dão a entender que nesse mundo tudo passa, e que as civilizações são mortais como os indivíduos. Mas os pagãos – e mesmo muitos cristãos amedrontados – parecem surdos às suas palavras. Roma caiu porque os antigos deuses foram ultrajados. Alarico não passa da mão vingadora de Júpiter. Para Agostinho, inicia-se outra batalha, uma das mais decisivas na história do cristianismo.

 Entre vários é preciso escolher

 “A galinha come o escorpião e, digerindo-o, transforma-o em ovo. E como não falar de Roma? Não temos lá muitos irmãos? Não está lá uma grande parte da Jerusalém terrestre? É o que digo, quando não me calo a respeito dela, a não ser que não seja verdade o que dizem de nosso Cristo, que Ele seria culpado pela queda de Roma, protegida por divindades de pedra e de madeira… Deuses que têm olhos e não veem, orelhas e não ouvem. Eis a que guardiões foi confiada Roma por homens doutos: a guardiões que não enxergam. Se tais deuses podiam proteger Roma, por que razão morreram antes dela? Sei que respondem – Roma morreu – É verdade, mas eles (os deuses) também morreram”. O trabalho em que Agostinho apresenta a defesa do cristianismo e convida seus contemporâneos a compreender o sentido profundo da história é a sua obra-prima, A Cidade de Deus. Já não se trata de um reino de Deus que sucede à vida terrena. A cidade de Deus e a dos homens coexistem: a primeira, antes simbolizada por Jerusalém, é agora a comunidade dos cristãos. A cidade dos homens tem poderes políticos, moral e exigências próprias. As duas cidades permanecerão lado a lado até o fim dos tempos, mas depois a divina triunfará para participar da eternidade. Agostinho levou 13 anos para escrever os 22 livros da obra que teria enorme influência em toda a Idade Média. Para ele, Deus legitima a própria existência do poder, sem garantir o exercício concreto deste. A providência divina não confere a um ato o caráter de ato moralmente cristão. Desta forma, um católico pode afirmar que nada se faz sem Deus, do qual procedem o princípio de autoridade e a orientação misteriosa dos fatos. E ao mesmo tempo, pode evitar que o cristianismo seja responsabilizado por este ou aquele acontecimento particular. O cristão pode, simultaneamente, ver a mão da providência na queda de Roma, e lutar contra o perigo bárbaro com todo o coração e todas as suas forças. A filosofia política de Agostinho é uma filosofia de tempos difíceis, e serviu admiravelmente aos objetivos de seu autor, destruindo a argumentação dos polemistas pagãos. “Roma não é eterna, porque só Deus é eterno”. O perigo imediato passara, a morte havia paralisado, em Consenza, a marcha de Alarico. O chefe bárbaro jazia, com seu cavalo e seus tesouros, no leito do rio Busento. Agostinho, porém, não encontrava descanso. Novas heresias, como a dos pelagianos, pretendiam afastar do cristianismo todo o elemento sobrenatural, ameaçavam a comunidade dos fiéis. O bispo prossegue em sua luta, procurando sempre antepor os argumentos do coração aos da razão. As palavras que mais frequentemente aparecem em seus escritos são amor e caridade. Amor, para ele, significa o conjunto de forças que leva o homem a um determinado caminho, escolhido pela consciência. “Há amores que devem ser amados, e amores que não devem ser amados”. Para Agostinho, o conhecimento abrange o homem inteiro, mente e coração. A alma é uma substância dotada de razão e apta para governar o corpo. A fé serve de ponto de partida para colocar a mente na direção certa, marca os limites do campo que a razão deverá preencher. A realização vem quando se compreende aquilo em que se acredita. Sua doutrina nasce nos estudos que se originaram da necessidade de responder aos heréticos. Agostinho procura uma filosofia – que ele entende como sendo o caminho para a felicidade – capaz de englobar o cristianismo e a salvação. Adota algumas posições dos seguidores de Platão, como a concepção de dois níveis de conhecimento – um através dos sentidos, e outro percebido unicamente pela razão. E junta-lhes a figura de Cristo. Com esses elementos iniciais ergue um edifício filosófico que muito influenciaria o pensamento ocidental e que, em alguns aspectos, conserva ainda hoje toda a sua força polêmica.

Muitas vezes, porém, ao desenvolver uma idéia, interrompe o raciocínio para deixar fugir um grito de amor a Deus: “Ó Senhor, amo-Te. Tu me estremeceste meu coração com a palavra e fizeste nascer o amor por Ti. Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Te amei… Tocaste-me, e ardo de desejo de alcançar Tua paz”. Mesclavam-se nele o polemista inimigo das heresias, o administrador dos recursos da Igreja e o místico, que escolhera, tantos anos atrás, uma vida de recolhimento.

 Uma árvore tem folhas verdes. Como serão os frutos?

 “Agostinho, vida”, é o grito que ressoa na Basílica da Paz de Hipona, a 26 de setembro de 426. É um dia de grande emoção para os fiéis: o bispo Agostinho designa o seu sucessor na pessoa do Padre Heráclio. Repete-se, depois de trinta anos, uma cena que os habitantes da cidade não esqueceram – a escolha de Agostinho por Valério. Como aquele que o nomeara, Agostinho é agora um velho. Tem 72 anos. Relembra aos fiéis que uma vez exprimira o desejo de ter cinco dias livres por semana para poder escrever e rever as obras que de todos os lugares lhe solicitavam. Nascem, depois de um ano de trabalho, os dois volumes de Retratações, que comentam dezenas de obras. Sua “especialização” como escritor não o impede, porém, de continuar a se dirigir ao povo. Durante quarenta anos, desde que reencontrou a fé, Agostinho teve sua vida sobrecarregada. Primeiro constrói seu mosteiro. Torna-se depois sacerdote e bispo, encarregado até mesmo de distribuir justiça em nome do império. Conseguiu, entretanto, permanecer fiel à sua vocação de contemplativo e arranjou tempo para realizar uma obra literária gigantesca – 113 trabalhos, 224 cartas e mais de quinhentos sermões. Excetuadas as Confissões, escritas entre 397 e 398, foram precisos vinte anos para completar os 15 livros sobre a Trindade. O De Doctrina Christiana, depois de parcialmente escrito, teve de aguardar quase trinta anos até que Agostinho pudesse cuidar da terça parte restante. Poucos escritores do passado são conhecidos tão detalhadamente quanto ele. Se as Confissões revelam até mesmo os recantos de sua alma, os discursos que pronunciou em quarenta anos mostram-no sob outros aspectos. É fácil imaginá-lo com sua voz, que a idade tornava apagada, usando uma linguagem direta e fácil, muito diferente das sutilezas de seus escritos. O antigo mestre de eloquência consegue transmitir e adaptar os conceitos mais abstratos às exigências e à capacidade do auditório. Falava duas vezes por semana na Igreja da Paz. Em certa ocasião, explicando São João aos fiéis, ficou tão entusiasmado que pregou durante cinco dias consecutivos, constantemente aplaudido. Mas o bispo não alimentava ilusões: ”Vossos louvores são folhas de árvore ; gostaria de ver os frutos”. Muitas vezes lamentou a distância entre o seu pensamento, sua fé e amor a Deus, e as palavras que proferia. “…. Entretanto, a atenção dos que me escutam prova-me que meu modo de falar não é tão frio quanto possa parecer-me; pelo seu interesse compreendo que tiram dele algum proveito…”

 O lugar do pastor é à frente do rebanho

 Na primavera de 429, a África é dominada pelo terror. Chamados por Bonifácio, comandante do exército imperial, os vândalos atravessam o Mediterrâneo. Vêm como amigos. No entanto, passados poucos meses, o general é obrigado a empunhar as armas contra os soldados de Genserico. O Bispo de Hipona dirige palavras severas a Bonifácio: “Olha a África, olha como está devastada.. Ninguém teria pensado ou suposto que o célebre Bonifácio, aquele que de simples tribuno, com poucos soldados, vencendo e destruindo toda resistência, conseguiu pacificar todas estas populações, teria se sujeitados aos bárbaros, que com tamanha audácia devastam e saqueiam tantas regiões outrora povoadas… Eu, que estou atento às últimas causas, sei quantos males a África sofre por causa dos pecados de seus habitantes; mas não quisera que tu estivesses entre os malvados e iníquos; por causa dos quais Deus flagela os que escolhe com penas temporais…” Tarde demais. Os vândalos eram piores inimigos que os visigodos de Alarico. Seu nome tornou-se sinônimo de destruição e morte. Em poucos dias devastaram a Mauritânia, e em seguida a Numídia. Apesar dos esforços de Bonifácio, os bárbaros tornaram-se donos de todo o país. As legiões romanas dominavam apenas três cidades: Cartago, Cirta e Hipona. Nesta última, mais bem fortificada, Bonifácio prepara a derradeira defesa. Agostinho, aos 75 anos, vê que não há mais salvação para os hiponenses. Embora, nas amargas horas de desânimo, peça a Deus que o tire deste mundo, torna-se, como fizera vinte anos antes em relação aos refugiados de Roma, o organizados do auxílio aos fugitivos. Torna-se a voz da África, a testemunha mais categorizada do fim da latinidade no continente.

Data desses dias uma das últimas cartas escritas a Honorato, bispo de Thiabe, para lembrar que ao pastor de almas não é permitido fugir ante os perigos, e que o lugar dos bispos é à frente dos fiéis, até o fim: “…não devemos, por causa desses males incertos, cometer a culpa certa de abandonar nosso povo. Daí, adviria a ele grande mal, não quanto às coisas desta vida, mas da outra, que merece ser procurada com maior diligência e solicitude… Temamos que se extingam, abandonadas por nós, as pedras vivas, mais que a obra do incêndio que queima a estrutura de nossos edifícios terrenos. Temamos a morte dos membros do Corpo de Cristo, privados do alimento espiritual, mais que as torturas a que a ferocidade dos inimigos poderia submeter os membros do nosso corpo…”

 Todo conhecimento reside em Deus e na alma

 Catorze longos meses resistiria Hipona ao assédio dos vândalos. A cidade estava repleta de refugiados, a quem era preciso alimentar e vestir. Ao inimigo externo juntavam-se a carestia, a fome e as epidemias. Agostinho só podia oferecer a toda essa gente as suas preces. “Vós dizeis – Desgraçados de nós, o mundo morrerá. Mas ouvi a palavra: Céu e Terra passarão, mas a palavra de Deus não passará”. Muitos começaram a julgá-lo capaz de milagres. Certo dia trouxeram-lhe uma pessoa doente, para que ele a curasse com sua benção. Agostinho respondeu: “Meu filho, se tivesse tais poderes, começaria por curar a mim mesmo”. Sua doença durou poucos dias. Quando percebeu que a morte se avizinhava, pediu que o deixassem só, para que pudesse rezar. Nas paredes do quarto mandara afixar pergaminhos nos quais fizera escrever os salmos penitenciais de Davi. Agostinho morreu na noite de 28 para 29 de agosto de 430. “Não fez testamento”, escreveu Possídio, “porque, pobre para servir a Deus, não tinha bens a deixar… Mas deixou à Igreja um clero numeroso e mosteiros cheios de homens e mulheres sob voto de continência e obedientes a seus superiores”. De livro na mão e coração em chamas – assim os pintores medievais viram o bispo de Hipona. O livro simboliza a ciência; o coração inflamado, o amor. Sabedoria e amor foram os seus dons inseparáveis, que muitos contribuíram para que o Papa João II declarasse, em 534, que “a Igreja de Roma segue e conserva as doutrinas de Agostinho”. Ao construir sua filosofia como uma arma de defesa da fé, Agostinho forjou uma visão do mundo que influenciaria, por muitos séculos, todos os líderes espirituais do ocidente. A Cidade de Deus, síntese de filosofia, teologia, estudo das relações entre o Estado e a liberdade de consciência, marcou profundamente o pensamento político da Idade Média. Carlos Magno, considerava-o o seu livro preferido. Agostinho foi o autor mais citado no último Concilio do Vaticano, destinado a abrir novos rumos para o cristianismo dos tempos atuais. O fato talvez tivesse surpreendido aquele que, nos Solilóquios escritos ao pé da água que corria pelas termas de Cassiciaco, declarava que sua única finalidade era conhecer Deus e sua própria alma.

 

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