A Manifestação do Senhor

Os magos vieram do Oriente para adorar o nascido da Virgem. Esta é a festa que celebramos hoje; a ela, damos a merecida solenidade e dedicamos o sermão. Este dia brilhou pela primeira vez para os magos; para nós, retorna anualmente nesta festividade. Eles foram os primeiros frutos dos gentios, nós somos o povo constituído de gentios. A nós foi anunciado pela linguagem dos apóstolos; para eles, uma estrela, como a linguagem do céu; e os próprios apóstolos, como se fossem céus, nos proclamaram a glória de Deus [1] .

Por que não reconhecermos que os céus se tornaram tronos de Deus? Assim está escrito: A alma do justo é o trono da sabedoria [2]. Através destes céus reinou o criador e morador dos céus; ante tal trono o mundo estremeceu, e eis que aqui já crê. Grande mistério! Ele estava deitado na manjedoura e guiava os magos do Leste. Escondido em um estábulo, era reconhecido no céu, para que, reconhecido no céu, se manifestasse no estábulo e este dia recebesse o nome de Epifania, que pode ser traduzido como “manifestação”. Ao mesmo tempo, sua exuberância e humildade eram enaltecidas, para que aqueles que o buscavam o encontrassem em um estreito estábulo – para o qual os céus abertos guiavam com os sinais das estrelas – ; de modo que, mesmo sendo uma criança envolta em panos, os magos o adorassem e o maus o temessem [3] .

Com efeito, o rei Herodes o temeu quando os magos o anunciaram, ainda enquanto estavam procurando pelo Pequeno que já sabiam que ele nascera através do testemunho do céu. Como será o seu tribunal quando agir como juiz, se o berço do menino já aterrorizava os reis orgulhosos? Quão sábio são os reis agora que não buscam matá-lo, como Herodes, senão que, como os magos, se deleitam em adorar precisamente a quem sofreu por seus inimigos, da mão de seus mesmos inimigos, a mesma morte que o seu inimigo queria causá-lo e com sua morte ele matou a morte em seu corpo! Agora os reis sentem um piedoso temor a quem já está sentado à direita do Pai; a quem já temeu, quando Ele se encarnou no seio de sua Mãe, aquele rei ímpio. Ouçam o que está escrito: “Agora, ó reis, compreendei isso; instruí-vos, ó juízes da terra. Servi ao Senhor com respeito e exultai em sua presença; prestai-lhe homenagem com tremor […]”[4] . Aquele rei que vem aos reis ímpios e guia os piedosos, não nasceu como nascem os reis neste mundo, pois também nasceu o rei cujo o reino não é deste mundo. A nobreza do nascido manifestou-se na virgindade da Mãe e a nobreza da Mãe, na divindade do nascido. Finalmente, apesar de ter sido muito os reis dos judeus já nascidos e mortos, nenhum deles jamais procurou por magos para adorá-lo, visto que tampouco conheceram alguém pela voz do céu.

No entanto, os fatos não devem ser negligenciados, essa iluminação dos magos tornou-se o grande testemunho da cegueira dos judeus. Aqueles procuraram na terra daqueles o que estes não reconheceram em sua própria. Entre eles encontraram, sem palavras, o que os judeus negaram quando Ele ensinava. Esses peregrinos que vinham de longe adoravam a Cristo, uma criança que ainda não falava, ali onde seus concidadãos o crucificaram quando, já adulto, realizava milagres. Os magos o reconheceram como Deus na sua infância; os judeus sequer o perdoaram como homem quando Ele realizava suas grandiosas obras. Como se fosse algo maior ver uma nova estrela brilhante no dia de seu nascimento do que ver o sol chorar no dia de sua morte! Todavia, aquela mesma estrela que conduziu os magos ao lugar onde o menino Deus estava com sua Virgem Mãe e que certamente poderia ter os guiado até a mesma cidade, se escondeu e não voltou a aparecer até que haviam perguntado aos judeus em que cidade Cristo tinha que nascer, para que a nomeassem conforme o testemunho da Sagrada Escritura e disseram: Em Belém de Judá. Assim está escrito: “E tu, Belém, terra de Judá, não és de modo algum a menor entre as cidades de Judá, porque de ti sairá o chefe que governará Israel, meu povo.”[5]. O que mais a Providência divina quis dizer com isso, senão que as únicas Escrituras divinas ficariam sob a posse dos judeus com as quais os gentios seriam instruídos e eles cegados; que eles não a levariam como apoio para sua salvação, senão como testemunho da nossa? Pois, hoje mesmo, quando apresentamos as profecias sobre Cristo, já esclarecidas à luz dos acontecimentos, se por acaso nos comunicassem os pagãos, a quem queremos ganhar, que essas coisas não foram previstas de antemão, senão depois de acontecer o anunciado, de forma que o que se pensa ser uma profecia foi uma invenção dos cristãos, usamos os códices dos judeus para eliminar a dúvida dos pagãos. Pagãos que já estavam figurados naqueles magos a quem os judeus instruíram com as divinas Escrituras acerca da cidade em que Cristo nasceu, a quem eles nem buscavam, nem reconheciam.

Agora, pois, amadíssimos, filhos e herdeiros da graça, considerada vossa vocação e, uma vez manifestado Cristo aos judeus e aos gentios, apegue-se a ele como uma pedra angular [6] com um amor que não conhece limites. Com efeito, no limiar de sua infância Ele se manifestou tanto aos que estavam próximo e aos que estavam longe [7]. Aos judeus, nos pastores que se aproximaram e para os gentios, nos magos que vieram de longe. Aqueles chegaram no mesmo dia em que Ele nasceu; estes, acredita-se, hoje. Eles foram informados, pois, sem o primeiro ser sábio, nem o segundo apenas, pois na resistência dos pastores prevalece a ignorância, e nos ritos sacrílegos dos magos, a impiedade. Eles estavam unidos pela própria pedra angular, que veio para escolher os estultos do mundo para confundir os sábios [8], e não para chamar os justos, mas os pecadores, [9], para que ninguém, por maior que seja, vanglorie-se e ninguém, ainda que seja o menor, perca a esperança. Assim se explica que os escribas e fariseus, embora se considerem sábios e justos, ao mesmo tempo que, lendo os oráculos divinos, mostraram a cidade em que deveria nascer [10] , enquanto construtores o rejeitaram. Mas como Ele se tornou a cabeça angular [11] , o que Ele mostrou em seu nascimento se cumpriu em sua paixão. Apeguemo-nos a Ele em companhia do outro muro no qual estão os restos de Israel que, pela eleição livre, eles foram salvos [12]. Eles que haviam de se unir de perto, estão simbolizados nos pastores, para que também nós, cuja vocação significava a chegada de longe dos magos, permaneçamos nele não mais como peregrinos e inquilinos, mas como concidadãos dos santos e familiares Deus, edificados com eles no alicerce dos apóstolos e profetas, sendo Cristo a pedra angular; Ele que fez dos povos um só [13], de modo que nele amemos a unidade e possuamos uma caridade incansável para recuperar os ramos que, provenientes da árvore, também foram enxertados [14]; mas, desgastadas pela soberba, tornaram-se hereges. Deus é poderoso para enxertá-los novamente.

Sermão 200, Santo Agostinho

[1] Cf. Salmos XVIII,1

[2] Cf. Sabedoria VII,7

[3] Cf. São Mateus II,1-18

[4] Salmos II,10-11

[5] São Mateus II,5-6

[6] Cf. Efésios II,20

[7] Cf. Efésios II,17

[8] Cf. I Coríntios I,27

[9] Cf. São Mateus IX,13

[10] Cf. São Mateus II,4-6

[11] Cf. Salmos CXVII,22

[12] Cf. Romanos XI,5

[13] Cf. Efésios II,11-12

[14] Cf. Romanos XI,17-24

 

Traduzido por Juan Gabriel a partir da versão espanhola de Pío de Luis, OSA, disponível em: <http://www.augustinus.it/spagnolo/discorsi/discorso_255_testo.htm>

 

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