A Quaresma com Santo Agostinho

“História de uma conversão – A Quaresma com Santo Agostinho”, livro de Waldemar Turek inspirado nas “Confissões” são 57 reflexões  que emergem das meditações que o autor propôs durante a Quaresma de 2010, na Rádio Vaticano, a partir da obra em que Agostinho conta a história do seu itinerário espiritual, feito também de conversão, a mesma a que os cristãos são convidados durante a preparação para a Páscoa.As “Confissões”, explica Waldemar Turek na introdução, «são reflexões dialógicas sobre Deus, o homem, o mundo e a eternidade. A atmosfera de religiosidade fervorosa que as impregna também persuade o homem moderno e constitui uma ajuda preciosa para viver a Quaresma com mais intensidade»,

Abaixo duas transcrições do início da quaresma, quarta-feira de cinzas e o final na sexta-feira santa

«Suavizar a dureza» (Quarta-feira de Cinzas)

Ouçamos as palavras do salmista. «Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade, pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados.» (Sl 51,3)

Hoje, começa a Quaresma. É um tempo especial para a nossa caminhada espiritual: aprofunda-se a meditação sobre a vida, sobre a vocação e sobre o sofrimento, à luz daquilo que Jesus Cristo fez há dois mil anos. Reflitamos nas nossas quedas e nos nossos vícios, mas sobretudo na misericórdia de Deus que Se inclina para cada um de nós como o Pai na parábola do filho pródigo.

A misericórdia: esta palavra teve um grande significado para Agostinho, que descreve a história da sua vocação e das graças recebidas. “Confissões”, impregnadas com uma intensa religiosidade, também tocam de modo surpreendente o homem moderno e constituem igualmente para nós uma ajuda preciosa para vivermos com mais intensidade a Quaresma.

«”Recebei”, diz Agostinho a Deus, “o sacrifícios das Confissões, por meio do ministério da minha língua, por Vós formada e que impelistes a confessar o vosso nome. Sarai todos os meus ossos e que eles clamem: ‘Senhor, quem há semelhante a Vós?’ Aquele que se dirige a Vós, de coisa nenhuma que nele se realize vos informa, porque nem o coração fechado se esconde ao vosso olhar, nem a dureza dos homens repele a vossa mão. Pelo contrário, àquela amolecei-la quando quiserdes, ou com a misericórdia ou com o castigo.”»

O homem pode revestir-se de dureza – escreve Agostinho −, mas se Deus quiser pode suavizá-la. Podemos definir a Quaresma de várias maneiras e vivê-la também de modos diferentes. Seguindo Agostinho, podemos descrever este período como o tempo da abertura da alma a Deus. Carlo Maria Martini dizia a este propósito:

«Jesus ensina-nos a viver a Quaresma apoiando-nos na Palavra de Deus, meditada quotidianamente nas leituras da Liturgia, vivendo serena e humildemente a nossa vida sem procurar espetacularidades, coisas extraordinárias, mas escondendo-nos no serviço e no amor que o Senhor põe diante de nós; proclamando sempre e em toda a parte o primado de Deus, Deus sumamente amado, Deus acima de tudo: “Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.”»

A experiência diária diz-nos que, para vivermos momentos de oração profunda, é necessário um determinado clima. Por isso, devemos, ao menos de vez em quando, retirar-nos, afastar-nos e não falar nem ouvir ninguém; numa palavra, recolhermo-nos.

 

«Alcançar o caminho que leva à pátria» (Sexta-feira Santa)

Waldemar Turek

«Vinde a Mim vós os que trabalhais.» (Mt 11,28) Com estas palavras, Agostinho acabou o sétimo dos treze livros das “Confissões”, acompanhando as palavras de Jesus com um comentário que exprime, pelo menos em parte, o clima de um dia especial: a Sexta-Feira Santa. Agostinho apercebeu-se de que Deus tinha aberto diante dele um caminho novo, até então desconhecido, que conduzia à felicidade verdadeira há tanto tempo desejada. Também compreendeu que, para começar esta caminhada, não precisava de uma preparação filosófica ou da capacidade teorética porque o Deus dos cristãos era completamente diferente daquele Deus que, até então, entendera.

«Desdenham em aprender d’Ele, que é manso e humilde de coração. Escondestes estas coisas aos sábios e entendidos e as revelastes aos humildes. Uma coisa é ver de um píncaro arborizado a pátria da paz e não encontrar o caminho para ela, gastando esforços vãos por vias inacessíveis, entre os ataques e insídias dos desertores fugitivos com o seu chefe Leão e Dragão; e outra coisa é alcançar o caminho que para lá conduz, defendido pelos cuidados do General celeste.»

Deus que é manso e humilde de coração; Deus que esconde as grandes verdades aos sábios e aos inteligentes, e as revela aos simples; Deus que mostra o caminho que conduz ao reino da felicidade: eis a novidade que mudou a conceção que Agostinho tinha de Deus. De facto, acompanhava-o a consciência dos erros, dos insucessos e das derrotas. Falava da pátria da paz que via, mas não conseguia encontrar os caminhos que conduziam a ela; por isso, desviava-se e vagueava entre as insídias que o arrastavam. Agora, já podia ver esta estrada, sabia em que direção tinha de caminhar e conhecia quem estava à sua espera. Agostinho atravessa o limiar da fé.

Durante a Sexta-Feira Santa, a Igreja recorda-nos o caminho especial que Jesus percorreu em Jerusalém, carregando a pesada cruz. Atrás d’Ele, ao longo dos séculos, caminhavam santos mártires e confessores, esposos e virgens, sacerdotes e leigos, aqueles que estão bem presentes em Deus. Todos caminharam naquela estrada única que leva ao Reino de Deus e que é o próprio Cristo. Agostinho apresentou-nos, de maneira profunda, a beleza do discipulado.

Como conclusão deste itinerário, proponho uma espécie de exortação dirigida pelo Santo Padre Bento XVI aos participantes da audiência-geral, dedicada a Agostinho:

«Gostaria de dizer a todos, também a quem se encontra num momento de dificuldade no seu caminho de fé, a quem participa pouco da vida da Igreja ou a quem vive “como se Deus não existisse”, que não tenhais medo da Verdade, nunca interrompais o caminho para ela, nunca cesseis de procurar a verdade profunda sobre vós próprios e sobre as coisas com os olhos do coração. Deus não deixará de doar Luz para fazer ver e Calor para fazer sentir ao coração que nos ama e que deseja ser amado.»

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