Santo Agostinho e a Bíblia

A hermenêutica, ou teoria da interpretação, perpassa os séculos tentando auxiliar aos leitores que dela se apropriam para tirar sentido do texto que leem. Em especial à leitura da Sagrada Escritura, o temor e a responsabilidade diante deste ato deve fazer parte de cada pessoa que se lança a este prazeroso, mas ao mesmo tempo árduo processo de compreensão. Ler a palavra de Deus é tanto um privilégio quanto uma responsabilidade.

ASPECTOS HERMENÊUTICOS EM SANTO AGOSTINHO

EDISON HENRIQUE PESCH1

 

INTRODUÇÃO

A hermenêutica, ou teoria da interpretação, perpassa os séculos tentando auxiliar aos leitores que dela se apropriam para tirar sentido do texto que leem. Em especial à leitura da Sagrada Escritura, o temor e a responsabilidade diante deste ato devem fazer parte de cada pessoa que se lança a este prazeroso, mas ao mesmo tempo árduo processo de compreensão. Ler a palavra de Deus é tanto um privilégio quanto uma responsabilidade. 2 De fato, a herança do ideal protestante sobre o sacerdócio universal dos crentes é que todo cristão se debata com a complexidade da interpretação bíblica. Assim sendo, pode-se perceber também que ao longo de sua história a igreja tem dado atenção com a interpretação dos textos canônicos, como também das obras e escritos dos pais da igreja e dos reformadores. O período dos pais da igreja, ou dos “pais latinos”, é um momento importante para o desenvolvimento da hermenêutica do texto bíblico, pois esses teólogos irão fundamentar muitas questões relevantes sobre a interpretação bíblica. Eles viveram entre os séculos segundo ao quinto e suas obras foram escritas em latim. Muitos se destacam neste período como Tertuliano (155–220 d.C.), Jerônimo (347–420 d.C.), Orígenes (185–254 d.C.), Irineu (século 2º), entre outros. No entanto, destaque para Santo Agostinho (354–430 d.C.), notável bispo de Hipona, ao norte da África, cuja teologia transcorre os séculos (LOPES, 2004, p.141). A hermenêutica agostiniana contém ricos ensinamentos e sábias orientações para todos que se empenham na interpretação da sagrada escritura em busca de significados e aplicações práticas para seu dia-dia. Com muita dedicação e sinceridade, o líder da igreja em Hipona escreve suas obras visando o relacionamento com o divino e com a criatura. Escreve ele:

Depois desses dois graus do temor de Deus e da piedade, chega-se ao terceiro, o grau da ciência, justamente sobre o qual eu me propus escrever nesta obra. Porque é nesse grau que se há de exercitar todo estudioso das divinas Escrituras, com a intenção de não encontrar nelas outra coisa mais do que o dever de amar a Deus por Deus, e ao próximo por amor de Deus.3

Haja vista que a teologia tem uma longa história de envolvimento com a hermenêutica, o teólogo Agostinho oferece aspectos importantes desta ciência, versando sobre leitura, interpretação e relação das palavras com as coisas. Suas obras fornecem caminhos para se fazer uma hermenêutica dentro dos textos sagrados.

1 Conceitos de Hermenêutica Bíblica

A palavra hermenêutica decorre do verbo grego hermēneúō, que significa interpretar, traduzir, explicar. Esta palavra também pode ser usada no sentido de tradução de um texto, ou seja, extraindo um significado dele. Apesar de haver tantas áreas de hermenêutica, geralmente usa-se no sentido do contexto bíblico, da interpretação bíblica. Pode-se dizer que a hermenêutica é uma ciência, pois contêm método e regras. “A hermenêutica, em geral, é a disciplina que ensina as regras para interpretar um livro e a maneira de aplicá-las corretamente, com o fim de entender seu verdadeiro sentido, que é o intencionado pelo autor”.4

O objeto de estudo em questão é a Bíblia, logo não se tem apenas um livro para se interpretar, mas uma coleção de livros com diversidade e multiplicidade de expressões, linguagens, autores, contextos e sentidos. Contudo, cabe ressaltar, que embora haja toda essa diversidade nas escrituras sagradas, existe uma unidade, um conjunto e propósito indiscutíveis nestes livros que tornam a Bíblia um livro realmente singular.

É óbvio, sob o prisma da fé, de que a Bíblia Sagrada é a palavra de Deus, em que Ele usou homens, inspirados pelo Espírito Santo, a escrever o seu plano para a humanidade. Como disse Barth que “esse nosso encontro revelatório com a Bíblia é um evento salvífico, porque opera um milagre em nós: a criação da fé”. 5 No entanto, os autores eram seres humanos comuns que se utilizaram dos processos disponíveis da escrita de sua época e que foram influenciados pela sua visão de mundo, linguagens, contexto cultural, histórico e geográfico, que tornam um desafio para a hermenêutica bíblica.

Portanto, a hermenêutica bíblica utiliza-se de outras ciências que a auxiliam no processo da interpretação, tais como a história, a linguística, as ciências naturais e sociais, a arqueologia entre outras. Cabe, então, ao estudioso ou leitor fiel da Bíblia Sagrada, fazer uso destas ferramentas que compõem o processo hermenêutico a fim de tirar, com bom senso e fundamento, o melhor significado do texto bíblico. Como Robert Stein afirma: “cada autor bíblico escreveu um texto que podia ser compartilhado e compreendido por outras pessoas, submetendo-se propositadamente às convenções e à compreensão da linguagem de sua época”.6

2 Santo Agostinho de Hipona

Em 13 de novembro de 354, em Tagaste, província da Numídia ao norte da África, hoje Argélia, nasce Aurelius Augustinus. Filho de Mônica, uma cristã devota, e Patrício, pagão que se converteu ao cristianismo no seu leito de morte. Iniciou seus estudos onde nasceu e em Madaura, cidadezinha próxima. Mesmo com dificuldade seu pai se sacrificou para que o filho continuasse estudando e pudesse adentrar a magistratura. Para isso a família fora beneficiada por um amigo rico, Romaniano, que ajudou a enviar o jovem a Cartago onde ele completaria seus estudos superiores (PESSANHA, 1999, p. 6).

No entanto, antes de se interessar mais profundamente pelas questões intelectuais, viveu uma vida mundana. Começou sua carreira docente em Cartago, depois Roma, Milão e de volta a Tagaste. Contudo vivia imerso em graves questões intelectuais e existenciais. Havia abandonado o maniqueísmo7 e se simpatizado com o platonismo. Contudo, ainda dominado por impulsos carnais, sabia da necessidade de desvencilhar de todos estes embaraços para se dedicar, exclusivamente, à fé que sua mãe havia lhe introduzido como à sua vocação.

Foi ainda em Milão que:

 

Num dia qualquer de agosto de 386 da era cristã, um homem de 32 anos de idade chorava nos jardins de sua residência. Deprimido e angustiado, estava à procura de uma resposta definitiva que lhe desse sentido para a vida. Nesse momento ouviu uma voz de criança a cantar como se fosse um refrão: “Toma e lê, toma e lê”. Levantou-se bruscamente, conteve a torrente de lágrimas, olhou em torno para descobrir de onde vinha o canto, mas não viu mais que um livro sobre uma pequena mesa. Abriu e leu a página caída por acaso sob seus olhos: “Não caminheis em glutonarias e embriaguez, não nos prazeres impuros do leito e em leviandades, não em contendas e emulações, mas revesti-vos de Nosso Senhor Jesus Cristo, e não cuideis da carne com demasiados desejos”. Não quis ler mais. Uma espécie de luz inundou-lhe o coração, dissipando todas as trevas da incerteza, e ele correu à procura da mãe para lhe contar o sucedido. Ela exultou e bendisse ao Senhor, pois o filho estava convertido pelas palavras de Paulo de Tarso, e as portas da bem-aventurança eterna abriam-se finalmente para recebê-lo.8

 

A partir deste momento de genuína conversão, Agostinho começa seu caminho pela estrada estreita, porém segura e luminosa. Propôs a se dedicar à meditação teológica e ao recolhimento, mas, por proposição do bispo Valério de Hipona e por aclamação da assembleia, ingressou no ministério da igreja como pregador que o galgou até o posto máximo da igreja naquela localidade, como bispo, que permaneceu por quarenta anos. Deste ministério frutífero a frente da igreja desta localidade, por tanto tempo, provém, portanto, o adjetivo que geralmente acompanha seu nome – Agostinho de Hipona (PESSANHA, 1999, p. 10).

 

  • Agostinho como leitor da Escritura

Embora não tenha sido um tradutor, como Jerônimo havia sido, o bispo hiponiano foi um ilustre comentador dos textos sagrados. Portanto se gabaritou a ser um grande hermeneuta, interpretando o sentido do texto. E isso ocorreu a partir de sua conversão, num momento pessoal singular, que o levou, primeiramente a ser um leitor assíduo e apaixonado das escrituras. Neste relato, do próprio Agostinho, percebe-se a intensidade deste momento decisivo que fundamentou sua carreira hermenêutica:

“Por quanto tempo, por quanto tempo direi ainda: amanhã, amanhã? Por que não agora? Por que não pôr fim agora à minha indignidade? ”Assim falava e chorava, oprimido pela mais amarga dor do coração. Eis que, de repente, ouço uma voz vinda da casa vizinha. Parecia de um menino ou menina repetindo continuamente uma canção: “Toma e lê, toma e lê”. Mudei de semblante e comecei com a máxima atenção a observar se se tratava de alguma cantilena que as crianças gostam de repetir em seus jogos. Não me lembrava, porém, de tê-la ouvido antes. Reprimi o pranto e levantei-me. A única interpretação possível, para mim, era a de uma ordem divina para abrir o livro e ler as primeiras palavras que encontrasse. Tinha ouvido que Antão, assistindo por acaso a uma leitura evangélica, sentiu um chamado, como se a passagem lida fosse pessoalmente dirigida a ele: Vai, vende os teus bens e dá aos pobres, e terás um tesouro nos céus. Depois, vem e segue-me. E logo, através dessa mensagem, converteu-se a ti. Apressado, voltei ao lugar onde Alípio ficara sentado, pois, ao levantar-me, havia deixado aí o livro do Apóstolo. Peguei–o, abri e li em silêncio o primeiro capítulo sobre o qual caiu o meu olhar: Não em orgias e bebedeiras, nem na devassidão e libertinagem, nem nas rixas e ciúmes. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não procureis satisfazer os desejos da carne. Não quis ler mais, nem era necessário. Mal terminara a leitura dessa frase, dissiparam-se em mim todas as trevas da dúvida, como se penetrasse no meu coração uma luz de certeza.9

O que chama a atenção neste fato é o convite de uma voz misteriosa a Agostinho para ele ler, mas não como um livro qualquer, mas como um livro que, quando lesse suas primeiras palavras com o coração, sua vida tomaria outro rumo – o que de fato ocorreu. Fica claro aqui este primeiro aspecto basilar de toda hermenêutica de Agostinho que diz respeito à leitura.

A partir deste envolvimento profundo de Agostinho com a leitura das escrituras, uma enorme paixão pelo estilo da Bíblia inunda seu coração, ditada pelo Espírito. Até mesmo aquelas objeções que tinha à Palavra, baseadas em incongruências entre o texto e os seus discursos e o testemunhos da Lei e dos Profetas, que o bispo julgava existir, começaram a se esvanecer. Pôde, inclusive, perceber que todas as virtudes que outrora havia encontrado nos textos platônicos estavam presentes nos textos bíblicos. Contudo, admitia que não podia ouvir nestes textos do filósofo grego aquele que exclama: “Vinde a Mim, vós, os que estai cansados e sobrecarregados”, pois “escondestes estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelastes aos humildes”.10

3 Conhecimento dos livros: a essência do que é lido

No processo de leitura é importante compreender qual é o caráter, a índole ou a essência do que se está lendo. Logo aparecerão as passagens mais obscuras que devem ser examinadas no intuito de esclarecê-las. E um grande recurso para isso é analisá-las a partir de textos mais claros. Assim sendo, ao obter o sentido em textos mais claros, será mais fácil extrair o sentido destes textos mais difíceis.

Outro aspecto importante a considerar é que, mesmo que as Sagradas Escrituras contenham características de literatura secular como um conto, tragédia, romance e outros gêneros literários como cartas, poemas, entre outros, não se lê-las como se fossem tal literatura. Podem-se tomar por base as genealogias que não se prendem a uma sucessão verificável de consanguinidade, mas sim da presença do poder e da mão de Deus. Ou mesmo os evangelhos que não podem ser lidos apenas como livros históricos, mas sim como o plano de Deus para a humanidade a partir daqueles homens e mulheres na Palestina do primeiro século.

A índole que é apresentada, ou, no dizer de Agostinho, “o conhecimento dos livros”, é uma investigação feita com recursos e métodos disponíveis e à luz da fé. O leitor da Bíblia ou seu estudioso não pode prescindir do fato de que está em contato com um texto que apresenta e deseja dar a conhecer não o evento geográfico ou geológico, botânico ou psicológico, mas sim a afirmação de que Deus realizou algo em tudo isto, de alguma forma. A esta índole pode-se chegar com estudo e observação atenta e, especialmente, com a aquisição de um método e de critérios de leitura e aceitação. 11

Se perder esta verdade de sua mente, o leitor da Bíblia, por mais sincero que seja, não conseguirá desenvolver uma hermenêutica adequada do texto sagrado. É imprescindível ter como base o que Paulo afirmou ao seu aprendiz Timóteo: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça”.12

3.1 A canonicidade do texto

Fazer uma leitura canônica do texto resulta em adentrar este texto dentro de um determinado contexto. No caso em estudo o texto é a Sagrada Escritura e o contexto o ambiente onde foi e para quem foi escrita. Certamente Agostinho não conseguia visualizar todos os desdobramentos de suas afirmações sob o prisma hermenêutico como o entendemos hoje, mas toda sua convicção hermenêutica gira em torno desta canocidade do texto, ou seja, a interpretação da Bíblia em seu conjunto. Em sua obra A Doutrina cristã Agostinho afirma:

A primeira observação a ser feita a essa busca e empresa é, como já dissemos, tomar conhecimento dos Livros santos. Se, a princípio, não se conseguir apreender o sentido todo, pelo menos fazer a leitura e confiar à memória as santas palavras. De toda a forma, não ignorar por completo os Livros sagrados. Em seguida se há de verificar com grande cuidado e diligência os de fé que a Escritura propõe com clareza. Encontram-se tão mais abundantemente, quanto maior for a abertura do entendimento de quem busca, visto que nas passagens que a Escritura oferece com clareza encontram-se todos os preceitos referentes à fé e aos costumes, à esperança e à caridade, sobre os quais tratamos no primeiro livro.13

Fica claro para o bispo de Hipona que as sagradas contêm todos – não apenas alguns – os preceitos da fé, ou seja, não há necessidade de acrescentar a elas tradições, convenções humanas fundamentadas na parcialidade e sob interesses distintos.

3.2 Língua

A língua é a linguagem usada por um grupo, povo ou nação. A língua se utiliza de um código, através de um canal de comunicação para passar sua mensagem. No caso das Sagradas Escrituras as línguas usadas são o hebraico, aramaico e grego. Estes três idiomas constituem os códigos em que a Bíblia foi escrita. O canal utilizado para tanto foi a mensagem visual, por meio da escrita.

Compreender, ainda que minimamente as línguas bíblicas, seria algo essencial para compreender os limites do texto, a partir do contexto em que foi escrito. Analisar ambiente em foi escrito, seja geográfico, cultural, tempo, e não apenas ao código e sua semântica em si, tornarão as análises hermenêuticas mais realistas com as intenções do autor. Segundo Agostinho:

Para combater a ignorância dos signos próprios, o grande remédio é o conhecimento das línguas. Os conhecedores da língua latina, a quem pretendemos instruir neste momento, necessitam, para chegar a conhecer a fundo as divinas Escrituras, de duas outras línguas, a saber, o grego e o hebraico. Elas lhes permitirão recorrer aos exemplares mais antigos, no caso em que a infinita variedade das traduções latinas lhes traga alguma dúvida.14

 3.3 Contextos culturais

Na Bíblia há diversos ambientes, muito diferentes entre si, de livro para livro, que inevitavelmente influenciam a interpretação do texto.

Contexto originário do texto: nem sempre é a realidade que ele mesmo desejava expressar. O escritor pode escrever sobre um fato ocorrido muito tempo antes, e seu ambiente atual, no tempo e no espaço, acabam determinando seu processo de escrita. Contudo, há escritos em que o ambiente temporal da escrita explica muito sobre questões de difícil entendimento. Um exemplo é o caso de Gênesis 37, em que Onã deveria tomar a mulher de seu irmão, que havia morrido, para lhe dar descendência. Isso era chamado de Levirato.15

O linguista Douglas Tufano explica desta forma:

Um texto forma uma unidade de sentido. Se considerarmos separadamente os diversos segmentos que o compõem, podemos fazer uma interpretação equivocada de cada um deles e assim perder o sentido global do texto. Para perceber o sentido de um segmento é preciso levar em conta o contexto em que ele se encontra. 16

Em sua obra Cidade de Deus, Agostinho faz um contraste histórico, desde Caim e Abel até o fim do mundo, entre o surgimento e desenvolvimento da civitas dei (cidade de Deus), com a cidade terrena, representada pela Roma dominante. Por viverem um tempo em que tentava explicar a queda do império, percebe-se claramente a relevância e influência, sobre o autor e sua interpretação, do contexto em que era inserido.

 4 Características hermenêuticas

Santo Agostinho enfatiza alguns aspectos que julga importantes para se tentar fazer a melhor interpretação bíblica, dependendo, obviamente, da graça e inspiração divinas. Em razão do espaço do trabalho, serão destacados apenas os principais.

4.1 Preferência pelo literal

Em geral os pais latinos seguiam a linha de interpretação seguida pela escola de Antioquia. Essa escola tinha a preferência pela interpretação literal dos textos bíblicos. Tertuliano, considerado como o pai do cristianismo latino, não alegorizou as passagens de Gênesis 1 e 2, como era costume fazer naquela época, mas a conferiu lhe como histórica. Agostinho também favorecia este tipo de interpretação. Um exemplo disso é sua consideração de que os seis dias da criação, feita por Deus, eram, de fato, dias literais, embora não soubesse ao certo como poderia haver manhã e tarde sem a existência do sol. Contudo, Agostinho acredita que é possível uma interpretação literal, pois isso sucede do fato de que a criação, realizada por Deus, é, em última análise, um ato histórico. Deus cria no tempo e principia a história da criação. Logo o Gênesis é o relato da história do mundo e do ser humano e, portanto, deve ser descodificado e interpretado à essa luz.17

4.2 Intencionalidade do autor

Mesmo considerando que um único texto poderia ter sentidos diferentes, os intérpretes latinos ansiavam buscar aquele que refletia a intenção do escritor bíblico. Nas Confissões, nota-se o desejo ardente de Agostinho em se apoderar do sentido que o autor queria transmitir e, só a partir disso, ter a verdade exposta.

Vede, ó Senhor meu Deus, quantas coisas temos escrito concernentes a umas poucas palavras [da Bíblia] – vede quantas, peço-Te! Quanta força e quantas eras necessitaríamos se fôssemos tratar desta maneira todos os Teus livros? Permite-me, selecionar um único sentido que seja verdadeiro, certo e bom, que Tu inspires, apesar de que muitos sentidos se ofereçam e eu possa selecioná-los; que seja a fé da minha confissão, que eu lute para dizer da forma correta e proveitosa aquilo que o Teu ministro [o autor do texto bíblico] sentiu.18

A hermenêutica pós-moderna que, se utilizando dos conhecimentos da época e conceitos de linguística e da hermenêutica filosófica, relativizou a questão de sentido único do texto. Para esta linha, não existe um sentido único no texto. Isso, para a hermenêutica bíblica, acarreta na morte do autor e sua intenção. Porém, percebe-se na confissão de Agostinho que ele buscava, pedindo o auxílio divino, e embora crendo na possibilidade de outros sentidos, o sentido original que o autor queria expressar.

4.3 Eventuais alegorias

Os pais latinos não conseguiam se isentar completamente da maior tentação hermenêutica de sua época que era de alegorizar as escrituras, especialmente o Antigo Testamento. Isso acontecia especialmente quando contra argumentavam os judeus em relação a Cristo no Antigo Testamento enfatizando sua presença ao longo de toda velha aliança.19

Na passagem de Gênesis 1.20, Deus diz: “Produzam as águas abundantemente répteis de alma vivente; e voem as aves sobre a face da expansão dos céus”. Agostinho interpreta essa passagem comparando os sacramentos como esses répteis e os apóstolos e missionários como as aves. Ainda em relação ao vocábulo “água” ou “águas”, como narrado ao longo do capítulo primeiro de Gênesis, considera as maravilhas o que estas águas produziram, como os prodígios realizados por intermédio do evangelho. Para converter os ímpios Deus usa os apóstolos com maravilhas sobrenaturais, como curas, profecias e sinais.

Considerações finais

Santo Agostinho certamente foi o hermeneuta que mais influenciou a igreja e a teologia ocidental entre os pais latinos. Muitos o consideram o maior teólogo do cristianismo depois do apóstolo Paulo. Através de suas obras o bispo hiponiano pôde expressar sua forma de interpretar a Bíblia e auxiliar, de alguma forma, seus leitores e intérpretes no decorrer da história a partir do século terceiro. Infelizmente prevaleceu a ideia de que Agostinho só prezava pela interpretação literal do texto, o que neste artigo foi demonstrado que isso nem sempre acontecia. O momento em que ele recebe aquele chamado divino para tomar e ler as escrituras foi decisivo em sua jornada como leitor e intérprete que se iniciara. A partir deste evento considerou que só é possível fazer uma hermenêutica, com sentido, se primeiramente o interessado se lançar ao texto como leitor assíduo e apaixonado. Não só isso, se não tiver o entendimento, a partir da fé, de que o texto sagrado possui um caráter singular de inspiração do Espírito Santo, a interpretação ficará falha e poderá produzir dúvidas e questionamentos.

Outro aspecto que Agostinho levava muito em consideração em sua hermenêutica era o contexto cultural que determinado livro havia sido escrito e o ambiente com que estava sendo lido. Apesar de algumas vezes inclinar para uma prática comum de seus dias – a alegorização – privava pela interpretação literal, ressaltando os contextos como fundamentos.

Acima de tudo, Agostinho foi um grande defensor de buscar, como ele mesmo fazia relatado nas Confissões, o sentido ou a intenção que o autor, sob influência do Espírito Santo, queria transmitir. Por anos se envolveu em uma polêmica com Jerônimo sobre a passagem em que Paulo repreende Pedro pela impudência que tratava os cristãos gentios registrado em Gálatas 2.11. Jerônimo acreditava que Paulo estava apenas fingindo, tentando amenizar um ataque contra o cristianismo feito na época que ressaltava que Pedro e Paulo, principais líderes, eram inimigos. Agostinho se opôs a isso, argumentando que esta explanação acarretaria em considerar Paulo um mentiroso e a tirar a autoridade das escrituras. Fica evidente, neste ato, uma característica do bispo que era de interpretar a escritura em seu sentido mais simples e evidente e defender sua autoridade. 

Notas de Rodapé 

1 –  Mestrando em Teologia pela Faculdade Teológica Batista do Paraná. Pós-graduado em Comunicação Corporativa. Bacharel em Teologia e licenciado em Letras (português-inglês). Professor da Faculdade Cristã de Curitiba. E-mail: h_pesch@yahoo.com.br

2 –  VANHOOZER, Kevin J. Há um significado neste texto? Interpretação Bíblica: os enfoques contemporâneos. São Paulo: Editora Vida, 1998, p. 15.

3 – AGOSTINHO, Santo. A doutrina cristã. Manual de exegese e formação cristã. Livro II, cap. 7, n. 10.

4 – PERRELL A, G. M.; VAGAGGINI, L. Introdução geral, apud: BALL ARINI, T. Introdução à Bíblia, v. I, p. 209.

5 –  MILLER, Ed. L. e GRENZ, Stanley J. Teologias Contemporâneas. São Paulo: Vida Nova, 2011, p. 29.

6 –  STEIN, Robert. Guia Básico para a Interpretação da Bíblia. Rio de Janeiro: CPAD, 1999, p.33.

7 – Filosofia religiosa sincrética e dualística fundada e propagada por Maniqueu, filósofo cristão do século III, que divide o mundo simplesmente entre Bom, ou Deus, e Mau, ou o Diabo. A matéria é intrinsecamente má, e o espírito, intrinsecamente bom.

8 –  PESSANHA, José Américo Motta. Os Pensadores – Agostinho. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1999, p. 5.

9 –  SANTO AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1999, p. 222-223.

10 –  Mt 11.28; 11.25

11 –  NEGRO, Mauro. A Ciência Hermenêutica e Santo Agostinho. Revista de Cultura Teológica, v. 18 – n. 71 –Jul/Set 2010. Disponível em http://revistas.pucsp.br/index.php/culturateo/article/view/15389. Acesso em 17de julho de 2014.

12 –  II Tm 3.16.

13 –  AGOSTINHO, Santo. Apud NEGRO Mauro, A Ciência Hermenêutica e Santo Agostinho. Revista de Cultura Teológica, v. 18 – n. 71 – Jul/Set 2010. Disponível em http://revistas.pucsp.br/index.php/culturateo/article/view/15389. Acesso em 18 de julho de 2014.

14 –  AGOSTINHO, Santo. A Doutrina Cristã. São Paulo: Paulus, 2002.

15 –  É o costume, observado entre alguns povos, que obriga um homem a casar-se com a viúva de seu irmão quando este não deixa descendência masculina, sendo que o filho deste casamento é considerado descendente do morto. Este costume é mencionado no Antigo Testamento como uma das leis de Moisés.

16 – TUFANO, Douglas. Estudos de Língua e Literatura. São Paulo: Editora Moderna, 1998, p.40.

17 – SILVA, Paulo Oliveira e. Três Modos de Visão: Corporal, Espiritual e Intelectual. Apresentação e Tradução do Livro XII do Comentário Literal ao Livro do Gênesis em Doze Livros de Agostinho de Hipona. Disponível em http://ojs.letras.up.pt/index.php/civaug/article/view/32/pdf. Acesso em 19 de julho de 2014. 

18 –  Santo Agostinho apud LOPES, Augustus Nicodemus. A Bíblia e seus Intérpretes. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, p. 143.

19 – Ibid., p. 143.

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