Comentário ao Evangelho e ao Apocalipse de São João (3 tomos) fragmento

 

 

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio em Deus. Todas as coisas foram feitas por ele; e nada do que foi feito, foi feito sem ele. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam. Jo(1, 1-5).

 

 

(…)

8. O Verbo e os verbos

 
Que importância têm as palavras: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus, e o Verbo era Deus? Nós também pronunciamos verbos, quando falamos[1]. Mas este Verbo estava em Deus? Os verbos, ou as palavras que pronunciamos, passaram logo que foram articulados. Terá terminado o Verbo de Deus da mesma forma, logo que foi pronunciado? Como foram feitas por ele todas as coisas e sem ele nada foi feito? Como é governado por ele o que por ele foi dito, se ele cessou logo que foi pronunciado?

Que Verbo é esse cuja pronunciação não cessa? Ouvi com atenção, porque se trata de assunto sumamente importante. O modo habitual de falar fez que as palavras diminuíssem para nós no seu valor. Parece que se resumem em sons articulados, porque cessam logo que termina a sua pronunciação.

Mas há no interior do homem um verbo que permanece à medida que os fonemas procedem da faculdade vocal. O verbo é o que se pronuncia dum modo espiritual, é o que se exprime por meio da palavra, e é mais alguma coisa do que o puro som.

Quando eu digo “Deus” pronuncio uma palavra. Palavra breve é esta, constituída apenas por quatro letras que formam duas sílabas. Mas Deus é apenas isto? Quatro letras e duas sílabas resumem tudo o que Deus é? Ou o pensamento traduzido por uma expressão é tanto mais sublime quanto menor for o valor da mesma expressão? Que se passou no vosso coração quando ouvistes dizer Deus? Que se passava no meu coração quando eu dizia Deus?

Pensamos a substância excelente, suma, que transcende toda a criatura mutável, carnal e animal.

E se eu vos perguntar: Deus é mutável ou imutável? Vós respondeis imediatamente: Para longe de mim acreditar ou sentir que Deus é mutável. Deus é imutável. Embora pequena e carnal, a vossa alma só me pôde responder que Deus é imutável. Mas se toda a criatura é mutável, de onde vos veio a luz bastante para conhecer o que é superior a toda a criatura? Como pudestes responder com certeza que Deus é imutável? Que há pois no vosso coração, quando pensais a substância viva, eterna, onipotente, infinita, que está presente em toda a parte, toda em toda a parte, sem se limitar a lugar algum?

Quando formais em vós este pensamento, tendes no coração o verbo que representa Deus, tendes a ideia de Deus. Mas isto confundir-se-á com aquele vocábulo que consta de quatro letras e de duas sílabas? O que se diz e logo passa é o som, são as letras, são as sílabas. Passa a palavra que se pronuncia, mas permanece no sujeito pensante e inteligente que ouviu a palavra o que ela significa e exprime, mesmo depois da pronunciação da palavra.

9. O Verbo construtor

Prestai atenção ao verbo mental. Podeis conservar esse verbo no coração. O pensamento nasce na vossa mente. Esta dá-o à luz. O pensamento é a prole da mente, é o filho do coração.
Se quereis elaborar ou levantar da terra qualquer construção, por maior que ela seja, o coração gera primeiramente um projeto. Nasceu já o projeto, e não foi consumada a obra. Já vedes a vossa obra, mas ninguém mais a vê senão quando levantardes o edifício, imprimindo nele toda a arte e perfeição projetadas.

Os homens contemplam a construção, admiram e louvam o projeto do construtor. Deixam-se arrebatar pelo que veem, e admiram o que não veem. Pois quem poderá jamais contemplar um projeto antes da sua execução? Notastes, portanto, que o pensamento humano é objeto de admiração quando se trata de uma construção importante. Quereis agora observar a sublimidade do pensamento de Deus, e apreciar quem é o Senhor Jesus Cristo, o Verbo divino? Reparai na construção do mundo. Tudo o que vedes foi feito pelo Verbo. Por aqui ficareis a saber quem é o Verbo. Prestai atenção aos dois corpos do mundo – o céu e a terra.

Quem poderá explicar toda a beleza do céu? Quem poderá explicar a fecundidade da terra? Quem poderá louvar condignamente as vicissitudes dos tempos? Quem poderá louvar condignamente a força das sementes? E como vedes, muitas coisas deixo eu de mencionar, não suceda que, gastando muito tempo a recordá-las, diga pouco em comparação do muito que podeis imaginar por vós mesmos. No entanto, só por esta construção, vede que Verbo é aquele que a realizou? E o mundo criado não se resume no que vemos. Só pode observar-se o que é objeto dos sentidos externos. Mas pelo Verbo foram criados também os anjos. Pelo Verbo foram criados os arcanjos, as potestades, os tronos, as dominações, os principados.
Pelo Verbo tudo foi criado. Por tudo isto podeis pensar quem é o Verbo.

10.A tendência para banalizar

Dirá alguém: Quem pensa este Verbo? Quando ouvis falar no Verbo, não julgueis que se trata de coisa banal, nem reduzais o Verbo às palavras que ouvis com frequência. Às vezes diz-se: este pronunciou tais palavras; aquele exprimiu ou proferiu tais outras. Com o uso frequente a palavra tornou-se banal. Quando ouvis dizer: No princípio era o Verbo, reparai que o Verbo era Deus. Assim vereis que não se trata de uma palavra qualquer, como quando ouvis as palavras simples que vos habituais a ouvir.
 

11.Cizânia na seara

Mas vem o ariano infiel[2] e afirma que o Verbo de Deus foi criado. Como podia ser criado o Verbo de Deus, se Deus fez tudo por meio do Verbo? Se o Verbo de Deus foi criado, por meio de que outro Verbo foi criado? Se afirmas que o Verbo foi criado pelo Verbo, eu afirmo que é este o Filho único de Deus. Se afirmas que o Verbo não foi criado pelo Verbo, hás de admitir que nem tudo foi criado por aquele por quem tudo foi criado – o que é uma evidente contradição.

Também não podia criar-se a si mesmo aquele por quem tudo foi criado. Acredita, pois, o Evangelista. Ele podia dizer: “No princípio Deus criou o Verbo”, à semelhança de Moisés que disse: “No princípio criou Deus o céu e a terra”[3], mencionando depois as criaturas, e observando: Deus disse “Faça-se”, e tudo foi feito. Se alguém disse, quem foi que disse? Deus. E que foi feito? A criatura. Entre Deus que disse e a criatura que foi feita, quem é aquele por meio do qual foi feita a criatura? O Verbo. Deus disse “Faça-se” e tudo foi feito. O Verbo é imutável, e imutável permanece, ao passo que as coisas mutáveis foram criadas por ele.

12.Exatidão na fé 

Não julgueis, pois, que é criatura aquele por quem tudo foi criado, para serdes reformados por aquele que tudo reformou. Vós fostes criados pelo Verbo, mas importa que sejais também remidos pelo Verbo. Se a vossa fé acerca da natureza do Verbo não for verdadeira, não sereis remidos pelo Verbo. Confessando que sois criaturas criadas pelo Verbo, humilhais-vos. E a confissão que fazeis do nada que sois vem a ser uma garantia no sentido de serdes reformados por aquele que vos formou, e recriados ou remidos por aquele que vos criou.

Como podereis ser remidos pelo Verbo, se não é exata a fé que tendes acerca do Verbo? O Evangelista diz: No princípio era o Verbo; e vós dizeis: No princípio foi criado o Verbo. O Evangelista acrescenta: Todas as coisas foram feitas por ele; e vós dizeis que o próprio Verbo foi criado. O Evangelista podia dizer: No princípio foi criado o Verbo; mas disse: No princípio era o Verbo. Se era, não foi criado, e todas as coisas foram criadas por ele, e nada existe sem ele. Se não podeis compreender o texto do Evangelho que diz: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus, e o Verbo era Deus, deixai passar algum tempo, até que a vossa fé se torne mais robusta. Esta verdade é alimento forte, mas convém que vos alimenteis com leite, até que venhais a tornar-vos mais robustos. Depois usareis do alimento forte.
 

13.Filho e irmão dos vermes

 Irmãos, o Evangelho diz: Nada foi feito sem ele, depois de dizer: Todos as coisas foram feitas por ele. Não julgueis que o nada é alguma coisa. Muitos, levados pela má compreensão do texto – sem ele nada foi feito – julgam que o nada é alguma coisa. O pecado não foi feito por ele, e é evidente que o pecado é nada, e os homens quando pecam tornam-se nada… O ídolo não foi feito pelo Verbo, embora tenha forma humana. O homem é que foi feito pelo Verbo, e não a forma do homem no ídolo, pois está escrito: “Nós sabemos que o ídolo é nada no mundo” [4]. Estas coisas não foram criadas pelo Verbo.

Pelo Verbo foi criado tudo o que foi criado segundo a natureza, tudo o que existe nas criaturas, absolutamente tudo o que está fixo no céu, o que brilha lá no alto, o que voa pelos ares, o que se move no universo, toda a criatura enfim. Direi mais, irmãos, para melhor entenderdes. O Verbo criou tudo, desde o anjo até ao verme mais pequenino. Entre as criaturas, haverá alguma superior ao anjo? E haverá alguma que em abjeção se equipare ao verme? Pois o anjo foi criado precisamente por aquele que criou o verme. Entretanto, o anjo é digno do céu e o verme é digno da terra.

Quem criou, dispôs assim as coisas. Se colocasse no céu o verme, tomaríeis daí ocasião para censurar. Do mesmo modo havíeis de censurar se fizesse que o anjo nascesse da podridão. No entanto Deus fez algo de semelhante a isto, e não podemos repreendê-lo. Todos os homens que nascem da carne, que são eles senão vermes? Deus até dos vermes faz anjos. Se o Senhor diz: “Eu sou verme e não homem”[5], quem hesita em afirmar o que está escrito em Jó: “O homem é podridão, e o filho do homem é verme”[6]? O texto bíblico primeiramente diz: “O homem é podridão”, e depois acrescenta: “O filho do homem é verme”.

O homem é podridão e o filho do homem é verme, porque o homem nasce da podridão. Por vosso amor eis o que se dignou fazer-se aquele de quem se diz: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus, e o Verbo era Deus. Porque quis ele fazer-se verme por vosso amor? Para vos preparar um alimento suave, pois não podíeis tomar alimento forte[7]. Perscrutai o mais profundamente possível o sentido destas palavras: Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada foi feito. Toda a criatura foi feita por ele, tanto a maior como a menor; as superiores e as inferiores; as espirituais e as corporais. Não há forma, não há junção ou harmonia de partes, não há substância alguma dotada de peso, número ou medida que não exista por virtude do Verbo, do Verbo criador, de quem disse: “Tudo dispuseste com medida, conta e peso”[8].
 

14.Armadilhas de sedução

 Não vos deixeis enganar, quando vos sentirdes incomodados com as moscas. Alguns foram ludibriados pelo demônio e colhidos por meio das moscas. Os caçadores de aves costumam colocar moscas nas armadilhas, para seduzir as aves famintas. Também estes são enganados pelo demônio que para isso se serve das moscas.

Certo homem aborrecia-se extraordinariamente com as moscas. Um maniqueu encontrou-o assim aborrecido. O homem disse-lhe que não podia suportar as moscas, e que as odiava profundamente. Então o maniqueu perguntou-lhe: Quem fez as moscas? Aborrecido e cheio de ódio às moscas, não se atreveu a responder que foi Deus. Este homem era católico. O maniqueu observou: Se não foi Deus, quem as fez? E o católico respondeu: Creio que foi o demônio. Torna-lhe logo o maniqueu: Se foi o demônio que fez as moscas, como dizes, e suponho que julgas com prudência, quem fez a abelha que é pouco maior que a mosca? E o católico, tendo dito antes que foi o demônio quem fez a mosca, e sendo a mosca muito parecida com a abelha, não se atreveu a dizer que foi Deus quem fez a abelha. O maniqueu fê-lo passar da abelha ao gafanhoto; do gafanhoto ao lagarto; do lagarto à ave; da ave à ovelha; depois ao boi, depois ao elefante, e por fim ao homem. E levou o católico à persuasão de que o homem não foi criado por Deus. Desta forma o miserável, aborrecido com as moscas, fez-se mosca, colocando-se sob a posse do demônio. Diz-se que Belzebu significa príncipe das moscas, e acerca destas está escrito: “As moscas que morrem, destroem o óleo da suavidade”[9].
 

15.A soberba humilhada

 
A que propósito vem isto, irmãos? Fechai os ouvidos do vosso coração às sugestões do inimigo. Convencei-vos de que Deus fez todas as coisas, colocando cada uma no seu lugar. E por que sofremos nós tantos males da parte das criaturas que Deus fez? Por que ofendemos a Deus? E os anjos também sofrem estes males? Se não houvesse outro motivo, talvez nem nós experimentássemos tais incômodos nesta vida.

Não atribuais o castigo ao juiz; atribuí-o aos vossos pecados. Deus criou este animal pequeníssimo e vilíssimo para servir de tormento ao homem, porque o homem é soberbo, e exalta-se diante de Deus; porque gosta de atemorizar o seu próximo, sendo mortal como ele; porque se recusa a considerar como próximo os outros homens, sendo ele também homem. Por mais que o homem se exalte, saiba que está sujeito à impertinência das pulgas.

Porque vos inchais com soberba? Se o homem vos insulta, ficais intumescidos e irados. Procurai conhecer-vos na vossa baixeza. Lembrai-vos de que tendes de lutar com as pulgas, se quereis conciliar o sono. Irmãos, para que saibais que as criaturas incômodas foram feitas para reprimirmos a nossa soberba, recordemos um fato.
Deus podia abater o povo soberbo do Faraó, mandando-lhe pragas de ursos, de leões ou de serpentes. Mas preferiu castigá-lo com pragas de moscas e rãs, para lhe domar a soberba servindo-se dos mais vis animais[10].
 

16.Alusão ao lenho da cruz

Todas as coisas, irmãos, todas sem exceção, foram criadas por ele, e sem ele nada foi feito. E como se realizou essa obra? O que foi feito nele era vida. Este texto também se pode entender assim: O que foi feito nele, era vida. Se pronunciarmos desta última forma, afirmamos que tudo é vida. Mas haverá alguma coisa que não tenha sido feita nele? Ele, o Verbo, é a Sabedoria de Deus, e lê-se no salmo: “Fizeste tudo na Sabedoria”[11]. Tudo foi feito nele, e tudo foi feito por ele.

Se tudo foi feito nele, irmãos caríssimos, o que nele foi feito é vida. Portanto a terra é vida, o lenho é vida. Dizendo que o lenho é vida, fazemos já uma aplicação ao lenho da cruz de onde recebereis a vida. Portanto, a pedra também é vida. Mas é temeridade entender assim as coisas, pois pode invadir-nos de novo a doutrina abjeta dos maniqueus. Esta afirma que a pedra tem vida, e que o muro tem alma, e que tem alma a corda, a lã e o vestido. Assim costumam pensar esses loucos. E quando se veem reprimidos e contraditados, refugiam-se na Escritura, e exclamam: Por que se disse o que foi feito nele, era vida? Se tudo foi feito nele, tudo é vida.

Para que te não seduzam, pronuncia assim: O que foi feito, (faze aqui uma pausa, e depois continua) nisso estava a vida. E importa pronunciar assim, porque a terra que foi criada não é vida. Na Sabedoria, porém, há uma razão de ordem espiritual, pela qual se pode dizer que a terra que foi criada é vida.
17. Na alma do artista

 Vou explicar, como me for possível, esta minha última asserção. O artista faz uma arca. Primeiramente idealiza-a, possuindo-a em projeto. Se não a possuísse em projeto, como havia de executá-la? A arca idealizada existe de um modo invisível, e existirá de um modo visível quando for executada. Quando estiver executada, não deixa de existir em projeto. Já tem uma existência real, e ainda tem uma mental, ainda se conserva em ideia. Se a arca visível vier a ser destruída, pode construir-se outra, tomando-se como modelo o projeto da primeira.

Vejamos agora a natureza da arca que existe na realidade, e a da arca que só existe na mente. A primeira não é vida, a segunda é vida; a alma do artista onde se encontram todos os projetos antes de virem à execução tem vida. Irmãos caríssimos, a Sabedoria de Deus, pela qual foram criadas todas as coisas, contém de algum modo, segundo a arte, todas as coisas, antes de as criar. As coisas criadas podem não ser vida, mas o que foi criado, é vida nele. Contemplais o céu, e o céu corresponde a um projeto. Contemplais o sol e a lua, e o sol e a lua correspondem a um projeto, a uma ideia. Visivelmente são corpos; enquanto correspondem a uma ideia, são vida.

Entendei isto se podeis, pois foi-vos apresentado um alto pensamento. Essa grandeza não se deduz de mim, nem do fato de serem ditas por mim, pois não sou grande; deduz-se da grandeza de Deus. Eu não disse estas coisas de mim mesmo, que sou pequenino, mas não é pequeno aquele de quem procuro valer-me, para vo-las dizer. Aprenda-as cada qual na medida em que puder. Aquele a quem isso não for possível, alimente o seu coração em ordem a poder fazê-lo. E como há de alimentar-se? Primeiramente de leite, até que possa chegar à comida. Não se afaste do conhecimento de Cristo nascido segundo a carne, até chegar ao conhecimento de Cristo, o único gerado do Pai, Verbo divino que está no seio de Deus, pelo qual todas as coisas foram criadas. Nele está “a vida que é a luz dos homens”.
 

18. A luz dos homens

 
E a vida era a luz dos homens. E essa vida que ilumina os homens. Os animais não são iluminados porque não têm mentes racionais que possam ver a Sabedoria. O homem feito à imagem de Deus tem mente racional com que pode conhecer a Sabedoria. A vida pela qual tudo foi feito, é luz. Mas não é luz de todo e qualquer animal; é a luz dos homens. Por isso o Evangelho logo acrescenta: “Era a luz verdadeira que ilumina todo o homem que vem a este mundo” [12].

João Batista foi iluminado por esta luz. O mesmo sucedeu a João Evangelista. Quando João Batista disse: “Eu não sou o Cristo, mas o Cristo há de vir depois de mim, e eu não sou digno de desatar a correia dos seus sapatos”[13], estava iluminado por aquela luz. Quando João Evangelista escreveu: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus, e o Verbo era Deus, era iluminado por aquela luz. “A vida era a luz dos homens”.
 

19. A doença dos olhos

 Os corações insensatos não podem ser impressionados por essa luz. Estão de tal modo carregados pelos seus pecados, que não a podem ver. Todavia, não julguem que a luz está longe deles pelo fato de não poderem vê-la. Tornaram-se trevas por causa dos seus pecados. E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.

Irmãos, assim como o cego colocado ao sol está em presença do sol, estando o sol ausente dele, assim todo o insensato, e iníquo, e impuro, está cego no seu coração. A Sabedoria está presente; mas está ausente dos seus olhos. Não está propriamente ausente dele; ele é que está ausente dela.

Que tem, pois, a fazer? Limpar os olhos para ver Deus. Se o doente não pudesse ver por ter imundos e feridos os olhos, em virtude do pó, da remela ou do fumo, o médico dir-lhe-ia: Limpa a imundície dos teus olhos, para poderes ver a luz dos teus olhos. O pó, a remela e o fumo são os pecados e as iniquidades. Limpai tudo isto, e vereis a Sabedoria que vos está presente. Está escrito no Evangelho: “Bem-aventurados os puros do coração porque verão a Deus” [14].

 

[1] A palavra verbo, quando se refere ao homem, significa palavra e ideia. Pelo contexto se verá facilmente em que sentido é tomada. (N. do T.)

[2] O arianismo, doutrina propagada por Ario, afirma que o Verbo foi criado por Deus. Foi condenado no Concílio de Niceia, em 325. (N. do T.)

[3] Gn 1, 1.

[4] 1 Cor 8, 4.

[5] Sl 21 (22), 7.

[6] Jó 25, 6.

[7] Cf. 1 Cor 3, 3.

[8] Sb 11, 21.

[9] Ecl 10, 1.

[10] Ex 8, 6.21.

[11] Sl 103, 24.

[12] Jo 1, 9.

[13] Ibid., 20,27.

[14] Mt 5, 8.

 

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